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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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Há duas décadas, na sua casa

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No mês de junho de 1985 (portanto há vinte anos), estreava na Rede Globo a novela Roque Santeiro. De problema, a obra de Dias Gomes torneu-se dádiva. Problema porque a mesma novela, que era baseada em uma peça do autor, O Berço do Herói, havia sido proibida pela ditadura em 1975, mesmo depois de a sinopse ter sido aprovada e por volta de 36 capítulos terem sido gravados (mudaram os censores, mudou a forma de avaliar o trabalho). O departamento artístico da Globo (na época chefiado por Boni e Daniel Filho) se mobilizou para tentar a liberação, mas não teve remédio: nada pôde ir ao ar, dando um prejuízo imenso para a emissora.

O que se faria, então, para substituir Escalada, de Lauro Cesar Muniz, que acabaria em breve? Sem outro remédio, pela primeira vez a Globo reprisou uma novela em seu horário mais nobre: Selva de Pedra, de Janete Clair, voltou ao ar, em versão reduzida, enquanto uma outra novela era produzida às pressas, com o elenco de Roque Santeiro. Seria Pecado Capital, da mesma Janete Clair.

Roque Santeiro, asssim, só foi ao ar dez anos depois. Nos papéis principais estavam Regina Duarte (em vez de Betty Farias), Lima Duarte e José Wilker. Foi o maior sucesso da tv brasileira da década de 80 e uma das maiores audiências da Globo de todos os tempos. Quando a novela reprisou pela segunda ou terceira vez, em 2000, eu, que já havia assistido quando criança, pude perceber o porque do sucesso: realmente, a novela era miuto boa. Desde o texto crítico, ácido, debochado, absurdo, até as interpretações fantásticas e memoráveis dos atores (além dos já citados destacavam-se, por exemplo, Ary Fontoura e Eloisa Mafalda, como Seu Flô e Dona Pombinha, Cláudio Cavalcante como o "padre comunista", Armando Bogus como o Zé das Medalhas e Cássia Kiss como sua esposa, a Dona Lulu), tudo era bem acima da média. Numa época em que as novelas estavam em crise, foi um marco do gênero.

O centro da trama era a história da cidade de Asa Branca que cresceu e prosperou sobre uma mentira: o mito do herói Roque Santeiro, que teria enfrentado sozinho um bando de cangaceiros que invadiram a cidade e, por isso, teria sido morto. Além disso, passou a fazer milagres e foi considerado santo pela população local. A região vivia dessa lenda, explorando desde venda de medalhinhas e imagens para os turistas até a possibilidade de se banhar nas lamas milagrosas onde Roque teria aparecido para a menina Lulu. No entando, eis que surge o prróprio Roque Santeiro, 15 ou vinte anos depois, vivinho da silva, e coloca em risco tudo o que a cidade construíra até ali (na verdade ele não enfrentara nem um cangaceiro - havia fugido com medo). Se a mentira fosse descoberta, todos seriam desmascarados (o coronel Sinhozinho Malta, o prefeito, os empresários e inclusive Porcina, que não era realmente a viúva de Roque). A novela é construída sobre esse conflito: verdade e mentira, honestidade e corrupção, sinceridade e fingimento.

No final da peça, Roque Santeiro é assasinado pelos poderosos de Asa Branca, que assim podem continuar vivendo da lenda mentirosa. Mas, como novela não é teatro (nem deveria ser), na obra televisiva Roque Santeiro concorda em ir embora, mas antes dando um jeito de arrumar um pouco as coisas. Sinhozinho Malta e Porcina ficam juntos e felizes, Zé das Medalhas morre soterrado em suas medalhas, Lulu, que antes era prisioneira do marido, liberta-se (e acho que se casa com o padre - ?), um novo prefeito é eleito, o lobisomem parece que fica com a dançarina (Ruy Rezende e Cláudia Raia).

A novela, apesar de ser da obra de Dias Gomes, foi apenas metade escrita por ele. A outra metade saiu das mãos de Aginaldo Silva, que hoje em dia escreve coisas tipo Senhora do Destino (vomitável...).