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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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O cárcere, elas e nós

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Daniela tem 19 anos. Matou seu filho. Está grávida.
Cláudia tem 54 anos. Passou 28 anos presa. Latrocínio.
Betânia tem 28 anos. Condenada a 15 anos de cadeia. Assalto.

Essas são as protagonistas de O Cárecere e a rua. Longe de serem atrizes de cinema, ou personagens fictícias, são as pessoas que a gente encontra aqui e ali, na rua, no ônibus, no mercado. Moram em Porto Alegre. Cometeram crimes e foram encarceradas. Sofrem por isso e têm uma visão de mundo completamente diferente da minha ou da tua. Quando o filme inicia vemos Cláudia, perdida, tentando encontrar a parada de um ônibus que a leva para Teresópolis. Não sabemos ainda, mas essa é a primeira vez que ela sai do cárcere em 17 anos. Está me regime semi-aberto e pôde sair do presídio e ir para um albergue judicial. Agora ela tenta recomeçar a vida de alguma forma. Ela era a presidiária mais antiga do Madre Pelletier. Era como aqueles presos que vemos em filmes de prisão, os velhos, que têm um domínio sobre os outros por sua experiência e impõe respeito na marra. Ela tem um filho cujo crescimento não acompanhou. Hoje ele tem 20 e poucos anos, é casado e tem uma filha; não se dá bem com a mãe.

A primeira vez que vimos Daniela é logo após sua prisão. Está assustada. Foi presa acusada de assassinar seu filho. Diz achar a acusação um absurdo, nunca mataria um bebê. Pensa que vai ser livre em pouco tempo. Mas não é. Dias depois está desesperada, encerrada em sua cela, com medo de ser transferida para as galerias onde as outras moram, pois sofre ameaças todo o tempo. As presas não toleram quem mata criança. Está grávida e pode dar à luz a qualquer momento. Sua mãe não confia nela.

Betânia não suporta mais homem. Tem um caso com sua companheira de cela porque "mulher é compreensiva com a gente". Teve uma filha na prisão, e quando foi separada do bebê cortou-se toda. Betânia é liberada para o semi-aberto também, mas fica triste em deixar sua companheira. Chega no albergue e é tudo uma bagunça, várias mulheres em cada quarto, em muitos beliches. Betânia foge. Diz que vai se entregar na segunda-feira. Não se entrega. Arruma vários namorados, porque mudou de idéia sobre os homens. Às vezes tem vontade de cometer algum crime. Quer se entregar à polícia na velhice.

O que mais marca no filme não é a documentação da vida na prisão, pois esse não é o foco da diretora, Liliana Sulzbach. O que marca é a maneira como as três mulheres se abrem e mostram o que as forra por dentro. Desde o desespero de Daniela até a felicidade de Betânia com seu namorado, ou a tristeza de Cláudia, por tudo na vida dela ser como foi, tudo nos atinge porque são vidas simples, pobres vidas simples, que ficam atrás dos muros imensos dos presídios que nunca conhecemos. Cláudia diz que não aprendeu nada no cárcere. Ela diz: "a cadeia só serve para atrapalhar nossa vida". Semanas depois, ela corrige sua afirmação: na verdade aprendeu a se adaptar, aprendeu a ser mais dura com a vida, aprendeu a encarar os problemas de frente. Daniela diz que lá dentro o tempo passa tão depressa, enquanto aqui fora é tão devagar. Meses depois foi transferida para o manicômio.

É um filme que nos confronta não com a realidade dos outros, mas com a nossa própria. Elas falam como quem nunca foi ouvido. Sorriem e choram como quem nunca teve para quem sorrir e chorar. Como nós.