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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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Ben-Hur era gay e eu não sabia

Leio um livro de Gore Vidal. Belo livro. Queria ler um romance, mas acabei lendo De Fato e De Ficção, que traz artigos dele publicados em revistas na década de 70. Tenho aprendido muito. Muito mesmo. Principalmeente sobre literatura, tema da primeira parte da obra. Pois bem, há um texto chamado "Quem faz cinema?" em que ele conta sua participação na escritura do roteiro de Ben-Hur.

Antes de prosseguir, um esclarecimento: Gore Vidal é um dos mais conhecidos intelectuais norte-americanos. Escritor de sucesso, emaranhou-se por Hollywood escrevendo roteiros para ganhar uma grana extra (como fizeram tantos escritores famosos nas décadas de 30, 40 e 50).

ben-hur2.jpg

Ok, então o cara diz no texto que tava uma muvuca em relação ao roteiro de Ben-Hur. Na sua versão muda, de 1925, era o maior sucesso da MGM até o final dos anos 50. Como o estúdio tava em dificuldades financeiras, resolveu ressuscitar a história do príncipe judeu que é traído, preso e vira escravo, depois gladiador e acaba conhecendo Jesus Cristo no dia da crucificação. Pois é. Segundo o próprio Vidal, "o enredo de Ben-Hur é, basicamente, absurdo, e qualquer tentativa de dar-lhe nexo destruiria a horrível integridade da história. Mas para que seja possível ver um filme, é preciso que os personagens façam algum sentido do ponto e vista psicológico". Daí veio sua idéia.

O problema é que não havia conflito, um motor que movesse o judeu e o romano Messala rumo à vingança e a tudo aquilo que a briga entre os dois faz acontecer. Então, qual a solução, já que não se podia modificar a história que já vinha de antes? Gore Vidal sugere então ao diretor, William Wyler: "Quando garotos , os dois eram amantes. Agora, Messala quer continuar o caso. Ben-Hur o rejeita. Messala fica furioso. Chagrin d´amour, o motivo clássico dos assassinatos." O diretor fica desconcertado, mas concorda. Vidal diz que vai apenas sugerir o caso homossexual.

"Escrevo as cenas de um jeito que elas só farão sentido para aqueles que estiverem sintonizados. Os que não estiverem, continuarão achando que a ira de Messala é emocionalmente lógica, seja lá por que razão".

ben-hur1.jpg

Sua intenção não foi contada para Charlton Heston, que fazia o papel-título ("até hoje Heston ignora as coisas medonhas que dispusemos à volta dele"), mas Stephen Boyd, o Messala, sabia e "sempre que olhava para Ben-Hur, parecia um homem faminto vislumbrando um jantar através de uma vidraça".

Gore Vidal escreveu apenas parte do roteiro, como havia combinado com o produtor. Quem acabou de escrever foi Christopher Fry, que não devia saber do caso dos dois personagens principais. Por razões de sindicato, a autoria do filme ficou com Karl Tunberg, que não escreveu nada do roteiro utilizado, mas sim fez uma versão rejeitada pelo estúdio anos antes.

Confesso que, nas 3 vezes em que vi Ben-Hur, essa idéia de Gore Vidal não chegou até mim. Preciso ver o filme de novo, para ver se capto algo. As cenas no navio, com os escravos remando ao som dos chicotes e dos tambores são minhas preferidas.

Há uma frase que eu anotei, na última vez a que o assisti. Ben-Hur retorna não sei de onde para não sei que lugar. Já está tudo arruinado na vida dos judeus. Mesmo assim, ficam felizes, dizem que vão celebrar seu retorno. Aí, alguém fala: "Vamos celebrar, entre a poeira e as teias de aranha..."

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