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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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Snuff movies não ganham Oscar

Maira, a super-professora, pediu-me para comentar o filme 8 Milímetros. Vou ter que puxar um pouco pela memória, mas vou tentar dizer algo. Primeiro: fiquei surpreso, quando o assisti (há mais de um ano), por um filme de Joel Schumacher mexer com questões difíceis sem cair em facilidades e mostrando e falando, realmente, de coisas sórdidas como os snuff films.

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Schumacher é o diretor de coisas tipo Batman & Robin (detestável) e Flawless (que tem uma idéia até legal - mas tudo se perde no tom completamente equivocado, superficial e "sessão da tarde" que o cara dá para a história). Ele fez também O Cliente e Tempo de Matar, interessantes, mas sempre perdidos numa névoa de mediocridade. Seu melhor filme, Garotos Perdidos, era de 1987 (e talvez eu só goste porque tinha 7 anos e achava vampiros jovens o máximo).

Minha surpresa veio ao perceber que ele estava mostrando e falando sobre coisas que nem um filme de Hollywood havia tratado até então. E mostrava bem, apesar de qualquer coisa.

Segundo: snuff movies (ou films) são lendas urbanas, e, como a maioria, são assustadoramente irreais. Nunca ninguém viu, mas há sempre a grande possibilidade de que existam de verdade e, obviamente, alguém já os fez um dia, em algum lugar. Tratam-se, pois, de filmes reais, sempre ligados a sexo. Mas não são filmes somente pornográficos; são filmes com estupros, mortes, torturas de verdade, além de outras coisas difíceis de imaginar. Em suma, filmes criminosos, feitos para que pessoas sintam algum prazer ao ver outro ser-humano realmente sendo estuprado, morto, torturado etc, etc, etc...

8MM segue o detetive Tom Welles (interpretado por Nicolas Cage, sempre interessante), que vai se infiltrando no submundo do sexo para tentar descobrir se um vídeo mostrando a morte de uma garota é verdadeiro. Para ir conhecendo os lugares e pessoas ele conta com a ajuda de Max California (Joaquin Phoenix, cheio de piercings). No caminho, ele que é um cara certinho, vai se apavorando e se envolvendo cada vez mais no caso e nas situações em torno do caso.

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O roteiro é muito bom, do mesmo cara que escreveu Seven. O resultado final pode não ser um filme de David Fincher (como Seven foi): não é esteticamente sujo, não é visualmente ousado, não tem um ritmo perfeito, mas resolve-se bem, principalmente ao não acabar com o desfecho mais fácil. O filme insiste em, no final, ir um pouco mais além. E aí conhecemos Machine.

Um dos personagens mais assustadores que conheço, Machine veste-se usando aquelas máscaras de couro tenebrosas do sadomasoquismo. Ele aparece durante o filme, em algumas cenas, mas é no final que seu papel revela-se importante realmente.

E aí vem o que mais me marcou no filme e o que me deixa sempre confuso com as pessoas. Elas estão aqui e são alguém, mas em outro contexto são completamente diferentes e, talvez, lá, no escondido, mostram-se de verdade. É só ouvir um travesti falar quem são seus clientes. Geralmente, são homens casados, mais de 30 anos, que pagam para ser, digamos, comidos por um homem que se veste de mulher. Saem do motel e vão para casa, com seus filhos, falar mal das bichas da novela das sete.

Conheço, eu mesmo, não travestis, mas uma pessoa que, cotidianamente é "normal", ou seja, estuda, procura emprego, mora com a família, alimenta os gatos, mas quando se trata de sexo, gosta de ser tratada como cachorro, literalmente (é, literalmente mesmo). Mais ou menos isso que Machine, e o 8MM, me passam: existem coisas estranhas por aí, coisas horríveis, coisas deploráveis, e elas podem estar sendo feitas pelo meu colega, pelo professor da escolinha, pelo meu vizinho, pelo meu pai. Isso que eu chamo de um filme com conteúdo: ele nos faz pensar, ele nos interroga, ele nos mostra coisas das quais não falamos.

Se eu ainda acho que Garotos Perdidos é o melhor filme de Joel Schumacher de sua filmografia "jovem", 8MM é seu melhor da "adulta" (levando em consideração que eu não vi Por um Fio, e nunca chegarei perto, conscientemente, de O Fantasma da Ópera).

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