Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

Wando, a Banda Invisível e a Cantora Sensacional

Em A Náusea, Sartre escreveu que “é melhor ter feito amor do que fazê-lo ainda”. Não lembro muito bem o contexto onde está inserida a frase, mas é uma afirmação de que gosto assim, isoladamente. Não só no sexo (se no sexo for assim, e não discutirei isso agora), mas em inúmeras outras coisas isso pode acontecer. Por exemplo, é melhor ter ganho uma maratona do que ter que correr tudo outra vez para tentar um bicampeonato; é melhor ter um Oscar na prateleira do que viver a vida toda buscando filmes que dêem outra indicação ao prêmio etc...

Outra coisa deste tipo, para mim, são os shows. Teoricamente, eu gosto de shows. É um bom momento, talvez único, para ver o artista de perto, poder cantar desnorteadamente suas músicas e, quem sabe, presenciar um acontecimento singular ou versão inédita de alguma canção que ninguém fora dali vai ouvir. Mas geralmente na prática eu não gosto de shows. Pelo menos não dos artistas que eu vou porque eu já conheço, aprecio e tenho os CDs. Nesses casos, acho melhor já ter ido a shows do que ir ainda. Já falei de vários casos por aqui, e poderia citar neste momento o tedioso show da Marisa Monte, ou o frio show do Placebo, ou o desastroso show do Caetano Veloso.

Por essas razões, normalmente eu penso ser melhor ficar em casa escutando um CD ou vendo um DVD ao invés de gastar tempo e dinheiro e perder o bom humor com a platéia mal-educada (e eu sempre perco).

wando_elke1.jpg

Tudo parecia estar se encaminhando para esta minha conclusão também no show do Wando. Era o projeto A Bossa B que, segundo o release, tem como objetivo “pensar a música produzida hoje no Brasil e, ao mesmo tempo, desmistificar os vários gêneros musicais combinados sob o rótulo brega”. Achei a proposta bacana e comprei ingresso – menos por causa da proposta e mais porque eu tinha vontade de ver o Wando ao vivo mesmo. Pois então, no palco, subiu Elke Maravilha. Ela apresenta o projeto e faz intermediações entre os artistas. Elke começou a falar, contar coisas, dissertar sobre a música brega, sua história e artistas, tudo muito interessante, principalmente contado assim no jeito completamente fora de enciclopédia que ela tem. Chamando Wando, ele entrou, vestido todo de preto e começou a cantar.

Só que escutávamos todo o som como se ele estivesse acompanhado por uma banda imensa, com backing vocals inclusive, mas só ele e um guitarrista estavam no palco. A base musical era gravada e eu achei isso bizarro. Entretanto, fui pensando e já não estava mais achando tão ruim, afinal alguns shows são tão ensaiadinhos que uma banda tocando no palco ou num arquivo MP3 dá no mesmo (a Marisa Monte poderia fazer isso, aliás, com ela própria, e ficar em casa durante suas apresentações).

Estava suficiente para um show que me custou só R$ 7,50 – principalmente porque esse valor é bem inferior ao que eu pagaria se soubesse que Wando canta uma música olhando para uma calcinha, como se estivesse falando com uma mulher -, mas nada que um DVD não pudesse me fornecer.

Ele cantou três músicas e parou. Elke Maravilha (que durante o espetáculo todo ficou sentada numa poltrona ao lado direito do palco, iluminada por uma luz vermelha) fez perguntas sobre a carreira dele e sobre música, ele respondeu, fizeram piadas, conversaram longamente, foi divertidíssimo, então ele pegou uma guitarra e, sem nada falso ou invisível, começou a tocar e a cantar, apenas ele e a guitarrinha, a melhor de suas músicas: Moça. Isso foi muito, muito bom. Cantou mais uma assim, conversou mais com Elke e então, enquanto ele cantava Safada, entrou no palco Rita Ribeiro.

wando_rita_ribeiro1.jpg

Pois Rita Ribeiro é uma cantora maranhense que eu, ignorante completo, desconhecia. Li algumas coisas sobre ela antes de ir à apresentação, mas nada do que eu li me deu a idéia de sua voz magnífica. Sem dúvida, umas das mais belas e límpidas vozes que já escutei (se não acreditam em mim, leiam o texto do Caetano). Para meu total espanto, percebi que muitas pessoas foram ao show por causa dela e sabiam cantar suas músicas.

Ela e Wando interpretaram Eu sei que vou te amar. A voz dela me deixou completamente emocionado, achei de uma perfeição imensa. Quanto a Wando, ele cantava lendo (e errando) a letra com excesso de ar na voz, como se estivesse resfolegante ou chegando perto de um orgasmo. Aliás, cantando as músicas que não são do repertório dele (mais duas vieram na seqüência) ele desafinou pra cacete. Mas isso realmente não importa, afinal o ambiente do show estava descontraidíssimo e quem fica cobrando afinação é jurado do Ídolos.

Então vieram as músicas que ela cantou sozinha, do seu próprio repertório (a propósito, ela é bem moderna, não é cantora de sambinhas que acha que vive em Copacabana em 1963, nem fica fazendo exageros ridículos com a voz, como muitas boas cantoras por aí), depois outra intervenção de Elke Maravilha, onde elas começaram a discutir sobre Roberto Carlos, e Wando veio de novo, pra cantar com sua banda invisível e, então, já no final, Fogo e Paixão, com os dois intérpretes jogando rosas e maçãs ao público, fechou este show animado, alegre, gostoso e muitos outros adjetivos positivos que você puder imaginar.

Fiquei muito feliz por ter ido e não saí com aquela sensação que o melhor era ter ficado em casa. Alguns shows têm assim personalidade e força próprias que nenhum DVD consegue reproduzir.

Fotos: Mauro Sampaio/Acessepiauí

11 comentários

Comentar post

Pág. 1/2