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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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Lenda urbana e cálcio

Estava eu certa vez em minha visita diária – e aborrecida - ao supermercado quando avisto um homem e uma menininha entre caixas de leite. Eles olhavam na parte de baixo de todas, atentos.Vez ou outra a menina, satisfeita, estendia uma caixa e dizia: “ó, pai, essa tem o 1”.

Dias depois, encontro essas duas figuras fazendo a mesma coisa. Então, uma mulher aproximou-se e quis saber o que acontecia ali. O homem, como quem ensina os mistérios da vida, explicou que embaixo das caixas de leite há um número isolado dos outros. E esse número serviria para identificar quantas vezes aquele determinado leite foi reaproveitado. Isso significaria que, se não vendido, o leite voltaria para a fábrica, onde ele seria reprocessado e então embalado outra vez. Assim, apenas as caixas com o número 1 trariam o leite “virgem”, as outras todas eram leites velhos e – quem sabe – até estragados. “Ah, não sabia...” espantou-se a mulher, e foi pra casa achando-se mais inteligente.

Eu desconfiei. Pensei que não há tantos leites sobrando nas prateleiras para que sejam reaproveitados quatro ou cinco vezes, como alguns números contavam. Ainda mais porque cada caixa vale por meses, e durante meses elas seriam vendidas, com certeza. Também não haveria muita lógica em marcar desse modo o reaproveitamento do leite, pois deveriam haver leites de muitos lotes e de outros reaproveitamentos sendo reutilizados, não daria para controlar. E então, percebi o golpe letal na teoria: todos os números e datas impressos pelas produtoras de leite são carimbados, ao passo que os ditos números fatídicos são impressos, visivelmente, junto com a embalagem. Raciocinei que a empresa de embalagens não tem nada a ver com leite velho ou novo, e descartei com convicção os assuntos do homem e da menina neuróticos.

Só não sabia que isso atingia um status que ia além do Nacional. Pois encontrei esses dias um comunicado da Tetra Pak, lá perto das mesmas caixas de leite que o pai e a filha desbravavam. Dizia que tudo era mentira cabeluda, divulgada pela internet. E confirmava o que eu havia pensado: os números são impressos na fabricação das caixas, e têm relação com coisas que não interessam. Por lei, inclusive, é proibido reaproveitar produtos industrializados.

Enquanto isso vou me irritando com aquelas caixinhas novas, com uma abertura de plástico que faz tudo se derramar.

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