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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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miséria é miséria em qualquer canto

Quando José Wilker disse que Babel era um filme que fingia ser bom, eu ri da careca dele. Eu já havia visto 21 gramas e ficado transtornado com aquela história sem linearidade sobre três pessoas unidas em sua desgraça. Havia visto também o trailer de Babel, com o qual fiquei emocionado por causa das músicas e das poucas imagens que eu olhei (eu desviei os olhos, pra não estragar a surpresa – trailers sempre estragam a surpresa). Ok, quando eu gosto de um trailer eu penso que o filme vai ser bom. Mas às vezes isso não acontece.

Devo admitir que José Wilker estava certo. Babel finge que é bom, finge que é importante, finge que fala de coisas contemporâneas, mas é um punhado de histórias forçadamente trágicas, que, juntas, não me levaram a lugar algum.

Senti, desde o início, o dedo pesado do diretor apontando: algo muito ruim vai acontecer, algo extremamente terrível você verá. Quando acontece o tiro, é logo nos primeiros minutos, e depois tudo gira em torno das conseqüências – ou das causas – do incidente. Gira, gira, até ficar tonto, e acabar num desfecho sem consistência.

Cada uma das partes de Babel daria um filme em separado, talvez até um belo filme. Mas assim, juntas, forçando-se uma aproximação entre personagens distantes, as coisas acabam ficando banais no que têm de mais profundas. A mais marcante das histórias é a da babá que leva as crianças para o México e depois não consegue retornar. Adriana Barraza é uma atriz impressionante. A história da garota japonesa surda não tem nada a ver com nada e sobra no roteiro, apenas dando um ar de modernidade para, em material de imprensa, falarem sobre “a globalização e a tecnologia no mundo atual”. Já Brad Pitt cheio de rugas num quartinho no Marrocos será sempre Brad Pitt cheio de rugas num quartinho no Marrocos. Mas e daí?

Em filmes assim eu fico tenso. Sei que tragédias acontecerão, vou tentando preparar minha mente para o sangue e a morte e tudo que acontece torna-se motivo para eu ficar alerta. Fico a toda hora imaginando que as crianças vão ser atropeladas, ou a menina vai ser estuprada, e tento não ficar tão atento a ponto de me assustar quando o fato acontecer. Só que, quando o fim chega, e ninguém foi estuprado nem atropelado, isso acaba sendo frustrante – principalmente porque não há um substituto emocional para a tragédia anunciada. Na verdade, o diretor quer que certas cenas sejam grandes e impactantes, só que com a lengalenga que o filme se torna, sempre com sua auto-importância corroendo-se a si própria, meu distanciamento foi inevitável. No fim eu já nem me importaria se todo mundo fosse atropelado ou estuprado no deserto por jovens japoneses descabelados.

Terei que ajuntar a meu texto um trecho de uma crítica do uruguaio Enrique Buchichio que diz mais ou menos o que eu disse de um outro modo e - muito mais sonoro - em espanhol:

Pero la seguidilla de padecimientos entre trágicos y absurdos a los que Babel somete a sus personajes luce forzada, pretenciosa, irritante y, lo que es peor, carente de casi todo interés emocional, logrando provocar lo último que una película debería provocar en su espectador: el más mínimo interés por la suerte de sus personajes.

Babel es una película manipuladora en el peor de los sentidos posibles: te mantiene todo el tiempo con la sensación de que algo terrible va a pasar de un momento a otro, generando una tensión falsa (mexicanos a los tiros en una fiesta, una muchacha deprimida demasiado cerca de un balcón a gran altura), y cuando realmente algo pasa termina siendo un golpe bajo efectista y exagerado

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