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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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No meio do sol azul

Não fiz este blog com nenhum projeto editorial rígido, mas desde o começo percebi que ele não serviria para eu publicar textos ficcionais meus. Embora tenha feito isso algumas vezes, vários meses atrás, inclusive com alguns poemas (ruins, menos os antigos), nunca me senti à vontade para fazer isso aqui. Farei novamente, já que conversar com a Katine me deixou com vontade. A apresentação visual dele fica terrível, mas ok. Ou era muito separado ou muito junto. Optei pelo que está aí:

 

Uma pincelada um pouco mais escura. Estava lá, ele podia ver. No meio do sol azul, uma pincelada se destacando. Aquilo não fazia sentido. Pintar um sol de cores inimagináveis significava algo que ele não entendia. Mas uma pincelada fora do contexto não podia ser ignorada. Aquele pintor ainda acha que é artista. Cobra caro, é arrogante, e pinta como se pintam paredes de vestiário.
Ele escutava a secretária rindo. Falava ao telefone. Ela ria baixo, pensando não ser notada.
- Secretária!
Ela se cala. As teclas começam a soar novamente, pesadas no silêncio quase derretido do edifício fechado.
- Secretária!
O som termina. O calor silencia.
- Você já foi até lá?
Ela não parecia ser a mesma mulher de ontem. Algo estava faltando.
-Meu nome não é Secretária, é Datilógrafa. Eu datilografo. Só isso.
- E onde está a secretária?
- Eu não sei. Onde está a secretária?
- De certo, andando entre rios. Adora margens. Margens são como fogueiras: um pouco para lá, um pouco para cá.
- Às vezes esta cadeira me dá alergia. Há cupins no pé da mesa. O que você quer?
- Um whisky. E um vampiro. Alguém com quem eu possa conversar.
Ele comprou um presente para a esposa. Uma caixa. Não lembrava o que havia dentro. Quando sacudia, sons agudos pequenos eram como gritos sob muralhas. Guardava no armário da esquerda, junto com as pastas azuis. Depois lembraria.
- Datilógrafa!
O som das teclas metálicas marcando o papel. Ela escrevia o quê, sempre? Por que ele tinha uma datilógrafa e não uma secretária?
Sua janela de vidro. Olhava para baixo e quase desejava cair. Uma atração pelo asfalto.
- Datilógrafa!
Silêncio. Calor. Um sol azul. Um pintor arrogante presente na sala. Ele sai. Aquela mulher.
- Gosta de pintura?
- Do que você está falando?
Sua voz era como uma expulsão.
- Não uso maquiagem. Pode me ver de perto.
- Não, digo pintura, quadros.
- Eu datilografo. Só isso.
- Já viu meu sol azul?
- Não sou louca.
Ele entra na sala outra vez. O silêncio já estava lá. Depois, teclas soando no ar, quentes como sopa.
Uma mosca solitária entre as fitas de vídeo. Um fio de cabelo jaz na prateleira. A mosca pisa sobre a linha fina equilibrando-se e quase mexe-a. A secretária, entre margens, caminha no chão molhado e acha anti-higiênico. Usava calças cinzas, agora usa vestidos laranjas, levemente suspensos sobre os joelhos. Mas a cicatriz ao redor do tornozelo não a deixa feliz.

(Ederson Nunes - 16/12/04)

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