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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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A Casa de Quartos - Parte 5: Paranóica senhora

A chegada de Dona Wilma na pensão foi um marco. Tinha 70 anos e pensava que todos estavam contra ela – menos eu.

Chegou lá sendo amiga da dona da casa e foi instalada no quarto lá do fundo do corredor da cozinha, de onde saía pouquíssimo. Um quarto pequeno, de madeira, com uma janela para o exótico pedaço de morro atrás da casa. Alguns dias depois de sua chegada, implicou com três hóspedes cariocas, dizendo que eles haviam roubado seu tomate que estava na geladeira.

Aliás, colocávamos coisas na geladeira comunitária. Eu não costumava colocar etiquetas em nada, mas ela colocava. Em sua etiqueta estava sempre escrito “Vó Wilma”.

Os cariocas e ela discutiram a tarde toda, especialmente nas horas em que ela saía do quarto para ir ao banheiro e passava pela sala dizendo “esses ladrões roubam a comida da gente! Eu sou uma senhora doente e pegaram meu tomate!” e eles revidavam, e todos ficavam irritados.

Ela e o casal citado no texto anterior se davam muito bem. Eles dois – Ênio e Leci - eram pessoas quietas, não intrometidas, que gostavam de fumar na rua enquanto falavam de coisas que não me diziam respeito. A mulher cozinhava algo e dava para eu provar, às vezes, e enquanto eu colocava na boca ficava em volta perguntando, “Ta ótimo, né? Ficou bom, né? Gostoso, né?” e eu tinha que concordar.

Os três – o casal e D. Wilma – começaram a dividir despesas de comida. A mulher cozinhava – “que gosto bom, né?” – e D. Wilma pagava uma parte. Eles conversavam, riam e viam TV juntos. Até que a alegria acabou. Por algum motivo, um dia discutiram, e a partir de então eu era a Suíça da casa, o único neutro, pois só havia, naqueles dias, nós quatro. 

Eu chegava na pensão e o casal vinha me contar que a velha tinha feito isso e isso, e falado aquilo e aquilo. Eles iam se deitar, e, minutos depois, D. Wilma saía do seu quarto e vinha bater na porta do meu, com olhos esbugalhados de pássaro perseguido. Em segredo. Falava baixinho, bem perto, coisas sobre o casal. Eles destratavam-na, eles xingavam-na, falavam mal da filha dela, falavam mal das donas da casa, faziam feitiço, eram capetas disfarçados, enfim.

Falava sem parar, rapidíssimo, abafadamente, e com uma peculiaridade: um mau hálito hediondo. Era como se a oitava peste divina baixasse sobre mim. Ela não escovava os dentes desde o velório de Getúlio Vargas. Eu dava uns passos para trás, fugindo, mas ela me seguia, e falava, falava, e falava...