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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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A Casa de Quartos – Parte 4: Gisele Bündchen do Morro Santana

Certo dia acordei e na sala da pensão estava, vendo televisão, uma figura enigmática, vestida com uma camisa preta e maquiada pesadamente. Tinha uns 25 anos, era morena, estilo mulher com muito hormônio masculino. Um novo casal que morava lá apresentou-a como sendo a Cris. Eu não tinha muito o que fazer e me sentei na sala um pouco e a Cris começou a puxar assunto. Contou sua história de vida. Mentiras cabeludas. Principalmente levando-se em conta que ela era um travesti.

 

Disse que havia uns anos tinha começado sua carreira de modelo, muito bem sucedida. Participou de um grande concurso para a revelação de novos talentos da moda e eis que – pasmem! – ficou em segundo lugar, perdendo apenas para Gisele Bündchen. A partir de então começou a trabalhar muito, fez alguns desfiles em Milão, mas estava querendo mesmo era desenhar roupas. Então ficou morando uns tempos na Europa fazendo cursos com estilistas na França e na Holanda, e agora que estava de volta a Porto Alegre resolveu se inscrever - vejam só! – num curso do Senac e foi morar ali naquela casa decadente, enquanto trabalhava de promoter. Fingi que achei tudo lindo.

 

No dia seguinte o assunto na casa era o fio dental que ela usava para dormir, muito visível pela janela de vidro do seu quarto. Dois dias depois, ela desapareceu de lá, sem nem me dar tchauzinho.

 

Para ilustrar tudo, eis aí uma foto da casa, do de lado de cá do muro (havia um muro de três metros e mais alguns degrauzinhos do outro lado).

A janela ali é a do quarto onde ficou Cris.

Conselhos

Conselho 1 - Não importe dos Estados Unidos uma cabeça de tripé, pagando o frete mais barato, achando que ela vai chegar na sua casa em 10 dias. Esteja preparado para mais de um mês de espera.

Conselho 2 - Não confie em tudo que um atendente do Banco do Brasil te diz. Vá lá mais vezes, converse com os outros, e espante-se com as diferenças. Isso pode te poupar centenas de reais, em especial no pagamento de dívidas.

Conselho 3 - Não vá dormir sem jantar num dia em que pouco almoçou, numa semana em que comeu mal quase sempre. Isso pode causar sensações desagradáveis e três desmaios seguidos. E pior: nos dias seguintes você poderá ter dores constantes nos lugares em que bateu no chão e/ou paredes, principalmente cabeça, pescoço e cotovelos.

As ilhas desconhecidas

Por algum acaso, encontrei o site wikimapia.org. É o Google Earth misturado ao esquema da Wikipedia, com a possibilidade de se identificar textualmente os lugares, desde cidades até casas pequenas. Adorei. Fiquei horas olhando as lindas imagens de satélite, especialmente Rio Grande e região. Além do grande prazer mental que consegui obter me localizando no mundo, percebendo o todo ao invés de apenas a pequena parte que eu conheço à altura do chão, descobri lugares que eu só conhecia como referência, ou que eu não sabia bem onde ficava, apesar de lá já ter estado. Eis o caso das ilhas de Rio Grande.

 

Rio Grande é uma cidade que pode dizer-se "média" (com aí uns 200 mil habitantes), embora seja muito maior em território do que em desenvolvimento urbano, intelectual e pessoal. A cidade tem algumas ilhas, entre elas a Ilha dos Marinheiros, a maior ilha do Rio Grande do Sul. Em uma dessas ilhas nasceu minha mãe, e parte distante de minha família materna ainda lá vive. Chama-se Ilha do Leonídio, foi colonizada por portugueses e, apesar de sua exclusão total e errônea de alguns mapas do Rio Grande do Sul, ela existe sim, senhor (veja diferenças da região em dois mapas). Porém, olhando as imagens de satélite, me deparei com um fato desconcertante: ela não é exatamente uma ilha.


Tal localidade não está no meio da água, é apenas separada do continente por finos arroios (um deles o maligno Arroio das Cabeças), e isso foi uma grande decepção geográfica para mim.

 

Esse também é o caso da Ilha da Torotama, que fica um pouco mais para cima e na verdade parece – pelo satélite - mais uma península (ou algo do tipo) do que uma ilha. Mas tudo bem. Agora eu sei dessas coisas e fiquei feliz.

 

Como eu disse, esse tal de Wikimapia permite que qualquer usuário identifique nas imagens cidades, edifícios, praças, condomínios, bairros etc, além de poder editar coisas que outras pessoas colocaram, votar nos lugares ainda não aprovados, apagar e coisital. Fiquei fã disso. Identifiquei vários locais (em especial na Quinta, onde eu nasci - inclusive identifiquei um do lado errado da rua e ainda não pude apagar), votei contra os pontos debilmente identificados como "aqui mora o chupa-cabras", "Casa da Vó Neli", "Cafofo da Vanessa" e assemelhados, e editei alguns outros, corrigindo dados ou acrescentando. É meu novo passatempo, muito útil para quando eu quero fingir que não tenho nada para fazer.

 

A Casa de Quartos - Parte 3: Flores de plástico

Havia um quarto feito com uma parede de madeira que dividia a sala. Era pequeno e sua janela dava para a cozinha. Lá foi morar Eva. Era artesã. Fazia flores de material reciclado, especialmente garrafas PET. Muito bonitas. Não eram essas flores escrotas que comumente vemos, que nos dizem a toda hora: “olhe, somos uma garrafa de guaraná cortada em pétalas”. Não. Eram muito bem feitas, de vários tamanhos, tipos e espécies.

 

Eva tinha mais de 60 anos, era catarinense e ficava grande parte da semana trabalhando na sala, ocupando os sofás com todo o tipo de material e flores coloridas. Aos sábados, saía de manhã para montar uma barraca na feira de artesanato no Parque da Redenção. Comumente vendia pouco, ou nada. As flores eram caras. E ela odiava as pessoas que diziam que o trabalho dela era ótimo, perguntavam o preço, achavam caro e não compravam. Xingava-as constantemente.

 

Nós conversávamos bastante. Ela era inteligente e a pessoa mais normal que me aparecera por lá. O problema é que não conseguia parar de falar. Quando engatava uma conversa ficava horas tagarelando. Às vezes eu estava disposto a escutar e compartilhar algumas opiniões, embora imaginasse que se ela tivesse um ataque de tosse fulminante ainda daria tempo de ver a novela. Outros dias eu não estava a fim, e então tinha que fugir.

 

Certa vez, eu disse que não podia conversar, pois precisava tomar banho e estudar. Mas ela não deu muita bola e engatou considerações sobre as civilizações africanas e o mundo pré-colombiano (grandes diversidades de assunto ela tinha). Eu fui fugindo, mas ela me perseguia pela casa falando incessantemente, desde a cozinha até meu quarto. Tive que pegar a toalha e o sabonete e me trancar no banheiro na cara dela.

 

Infelizmente, ela se mudou de repente, antes que eu pudesse comprar uma flor. Nunca mais a vi. Mas após sair da casa, ela deixou uma espécie de móbile na cozinha, feito com fundos de garrafa derretidos e coloridos. Peguei-o e dei para a minha mãe, como pode comprovar o retrato ao lado. Existe até hoje.

A Casa de Quartos - Parte 2: Hit me again

Me mudei para a casa dia 12 de agosto de 2000. Fui colocado no quarto maior, o único quarto bom vago. Tal cômodo era para abrigar duas pessoas e eu tinha que rezar para que ninguém a mais chegasse, senão teria que dormir acompanhado por um estranho (isso acabou acontecendo um mês depois, e o estranho era meu colega de faculdade, mas no dia seguinte foi tirado de lá - dizem - pelo pastor da igreja que ele freqüentava).

 

Na casa, a essas alturas, já moravam outras cinco pessoas: uma moça simpática demais, daquelas que te pedem emprestado shampoo e 2 reais logo depois de te conhecer (Adriane, a veterana do local), e dois funcionários do Campus do Vale da UFRGS (que fica no lado oposto do morro): Cláudio, com seus 30 anos, bem educado, cabelos longos presos num rabo-de-cavalo apenas solto quando chegava em casa, e um senhor de cabelos brancos, alto e forte, alegre, Seu Renato,  que trazia chocolate ou chiclete, às vezes, para nós. No quarto no fim do corredor moravam ainda, há menos de uma semana, um casal, que só chegava à noite e adorava fazer comida com muito alho, deixando um cheiro ensurdecedor na cozinha.

 

Tudo parecia ir bem. Almoçamos até todos juntos num domingo em que as donas da casa foram limpar o jardim. Elas eram anti-petistas e eu ficava muito bravo com as coisas que falavam sobre a prefeitura, mas tudo bem, “eram boas pessoas” eu me equivocava pensando.

 

Então, coisas aconteceram: cortaram a nossa água. Simplesmente, um dia à tarde não tínhamos água e soubemos que a dona não havia pago. Telefonema pra cá, telefonema pra lá, no dia seguinte pagaram. Mas então cortaram a luz. Discussões rolaram. A menina veterana xingou todo mundo, aos gritos, no telefone. Novamente, pagaram no dia seguinte. Isso viria a acontecer diversas vezes ao longo do tempo: as donas da casa não pagavam as contas e nós ficávamos sem água e/ou luz. Um espanto. E, claro, elas sempre eram as vítimas. Elas pagavam em dia, mas a prefeitura petista mandava cortar...

 

O incrível Hulk

Tinha até já colocado no ar o segundo emocionante capítulo de minha saga quando tomei conhecimento do texto do Luciano Huck publicada na Folha de São Paulo e de toda uma repercussão negativa que ele teve, pois pessoas várias ficaram dando chilique só porque ele é rico e reclamou do assalto e da violência e coisa e tal.

Não vou fazer considerações importantes a respeito, pois tenho horror de me fazer de sabido e discutir assuntos sérios com seriedade pernóstica. Mas vou deixar um link para quem quiser baixar o conteúdo do artigo dele e de sua entrevista na Veja desta semana, cheia de considerações que eu achei relevantes, e que podem falar por si próprios, sem eu precisar dar pitacos furados.

Aperte aqui para baixar e ler, já que os textos são restritos a assinantes nos respectivos sites.

A Casa de Quartos - Parte 1: Descoberta

Pois estava a pensar sobre algo decente para escrever, lembrei-me de meus tempos de pensão e quis escrever sobre isso, especialmente para que eu não perca essas lembranças e que, assim, colocando-as neste papel virtual, eu possa também liberar o espaço que ocupam em meu cérebro para outras coisas.

 

Era 2000 e eu deveria me mudar para Porto Alegre a fim de estudar na UFRGS. O que faria eu, sem parentes ou amigos aqui e sem dinheiro para alugar apartamento? Morar em pensão, claro.

 

Vim de carro com minha mãe e meu padrasto e percorremos algumas ruas aqui do centro atrás dos lugares com anúncios no jornal. Cada coisa pior do que a outra, um horror. Tinha de tudo: 3 beliches num quarto abrigando trabalhadores de indústrias e migrantes nordestinos, onde eu teria a chave do meu armário para guardar o que eu quisesse (pelo tamanho, no máximo caberiam 2 latas de atum e um sabonete); um quarto que eu dividiria com um rapaz "muito bom e trabalhador", que só chegava à noite - o que não era de todo mal -, mas na sala havia pessoas tão estranhas (um velho semi-hebefrênico e um guri capeta e feio) que saímos de lá correndo, apesar de a dona do lugar aparentar ser boa gente; um apartamento bonito, na Alberto Bins, onde eu viveria com outros 5 ou 6 estudantes, sempre sendo fiscalizado pela dona do local, que morava em frente e dizia ser muito atenciosa para com todos (imaginei que ela tirava casquinhas sexuais da rapaziada). E eu, apavoradíssimo com tudo, pois nunca em minha vida tinha estado no centro de uma cidade com (bem) mais que 300 mil habitantes.

 

Então telefonamos para um número de outro anúncio e atendeu aquela que eu viria a conhecer como Dona Ina. Fomos no apartamento dela, ali na Protásio. Ela explicou que alugava quartos numa casa muito boa, onde só se hospedavam pessoas de nível, "até um padre" morara lá, mostrou umas fotos, falou coisas engraçadinhas... Pela problemática dos lugares que havíamos visitado, achamos prudente ir conhecer. Só que não era perto. Ou melhor, era quase no fim da cidade. Lá no Morro Santana, mais próximo de Viamão do que de Porto Alegre.

 

I'm a tumor, I'm a tumor, I'm a tumor

Era sábado e eu permaneci em casa de madrugada, tentando fazer coisas indescritíveis no Photoshop. Acabei ligando a TV pra que houvesse um sonzinho de fundo e estava passando a corrida de Fórmula 1. Detesto. Mas deixei lá, porque chovia forte no Japão e a corrida não podia iniciar, daí ficaram fazendo quase 20 voltas na pista, no meio do temporal, com o tal safety car na frente, só para honrar os contratos de transmissão. Achei engraçado. Quando a corrida iniciou, um monte de gente bateu e saiu e fez barbaridades e nem foi muito chato.

Daí acabou e eu me vi livre do Galvão Bueno. Começou, então, algo que eu não conhecia. Um desenho animado chamado Uma Família da Pesada (Family Guy), que a Globo passa ali escondidinho após o Altas Horas - quando tem Altas Horas. E é muito bom. Um desenho adulto, campeão de vendas de DVD nos EUA, onde um bebê super inteligente faz piadas racistas e quer dormir com prostitutas, um cachorro toma martinis e um tumor no cérebro canta uma musiquinha engraçada. Algo no estilo South Park, sem dúvida. Grandes cenas cômicas.


Agora, não entendo por que sempre o homem da família é retratado como burro, idiota e bobo. Desde Flintstones até Simpsons, passando por Família Dinossouros. Deve ser porque se fossem as mulheres nesse papel de retardadas mentais elas se sentiriam ofendidas e processariam os autores. Pouco senso de humor, talvez.