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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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Pra mim, Lojas do Aldo

Comprei uma revista Vogue RG, de 2003, pra ver as fotos. É uma edição dedicada ao carnaval e há vários ensaios fotográficos sobre o tema. Realmente muito interessantes.

Mas lá no início, numa pequena matéria que não segue o tema central, soube da existência do fotojornalista Kyoichi Tsuzuki. Ele fez, a partir daquele ano, uma exposição chamada "Happy Victims".


A exposição se constituía em 30 fotografias de pessoas que dedicam grande parte da vida em acumular roupas, acessórios e objetos de uma determinada marca, pela qual elas mantém uma espécie de fetiche. É como você só comprar na Renner, porque tem o cartão de lá. Só que eles compram porque querem realmente ter uma roupa Anna Sui, ou Dries Van Notten, e não porque são mais baratas e pode-se parcelar em cinco vezes.

No entanto, não são pessoas ricas. São jovens de classe média. Então, para poder comprar as caríssimas roupas eles passam a morar em apartamentos minúsculos, e não fazem mais nada da vida a não ser trabalhar para juntar grana e comprar coisas da sua marca preferida. Só que, como lembra o fotógrafo, elas não têm nenhum lugar bonito para ir, porque não têm mais dinheiro.

As fotos retratam essas vítimas felizes em seus cubículos, com as roupas espalhadas em volta. Com freqüência as pessoas estão borradas ou fora de foco, mas todos os casacos, saias, vestidos, sapatos, enchem o quadro com todas as cores.

Tudo absurdo, não é? Sim, mas além das fotos eu gostei das coisas que o fotógrafo diz. Vamos ver:

“Os do contra poderiam dizer que é mera insanidade gastar todo o seu dinheiro em roupas, que seria melhor gastar em livros ou discos ou... Na realidade trata-se simplesmente de hierarquia de coleções.”

E mais:

“Imagine um cômodo muito pequeno, a pessoa não tem muito dinheiro mas gasta todo o que tem em livros, e enche sua casa com livros, você não diria que é estúpido, certo? Mas um apartamento minúsculo cheio de roupas Dolce e Gabbana parece muito idiota, não? Esse é um grande preconceito nosso – a pessoa que gasta tudo em livros parece melhor do que a que gasta tudo em Dolce e Gabbana. Há uma hierarquia: livros têm a posição mais alta, depois discos, e a moda fica com um dos últimos lugares. Mas é tudo a mesma coisa. É o modo como sua paixão se manifesta.”

Eu fiquei pensando e acho que ele tem razão. No fim, todo mundo morre e esquece todos os Moby Dick que leu na vida.