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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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Wando, a Banda Invisível e a Cantora Sensacional

Em A Náusea, Sartre escreveu que “é melhor ter feito amor do que fazê-lo ainda”. Não lembro muito bem o contexto onde está inserida a frase, mas é uma afirmação de que gosto assim, isoladamente. Não só no sexo (se no sexo for assim, e não discutirei isso agora), mas em inúmeras outras coisas isso pode acontecer. Por exemplo, é melhor ter ganho uma maratona do que ter que correr tudo outra vez para tentar um bicampeonato; é melhor ter um Oscar na prateleira do que viver a vida toda buscando filmes que dêem outra indicação ao prêmio etc...

Outra coisa deste tipo, para mim, são os shows. Teoricamente, eu gosto de shows. É um bom momento, talvez único, para ver o artista de perto, poder cantar desnorteadamente suas músicas e, quem sabe, presenciar um acontecimento singular ou versão inédita de alguma canção que ninguém fora dali vai ouvir. Mas geralmente na prática eu não gosto de shows. Pelo menos não dos artistas que eu vou porque eu já conheço, aprecio e tenho os CDs. Nesses casos, acho melhor já ter ido a shows do que ir ainda. Já falei de vários casos por aqui, e poderia citar neste momento o tedioso show da Marisa Monte, ou o frio show do Placebo, ou o desastroso show do Caetano Veloso.

Por essas razões, normalmente eu penso ser melhor ficar em casa escutando um CD ou vendo um DVD ao invés de gastar tempo e dinheiro e perder o bom humor com a platéia mal-educada (e eu sempre perco).

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Tudo parecia estar se encaminhando para esta minha conclusão também no show do Wando. Era o projeto A Bossa B que, segundo o release, tem como objetivo “pensar a música produzida hoje no Brasil e, ao mesmo tempo, desmistificar os vários gêneros musicais combinados sob o rótulo brega”. Achei a proposta bacana e comprei ingresso – menos por causa da proposta e mais porque eu tinha vontade de ver o Wando ao vivo mesmo. Pois então, no palco, subiu Elke Maravilha. Ela apresenta o projeto e faz intermediações entre os artistas. Elke começou a falar, contar coisas, dissertar sobre a música brega, sua história e artistas, tudo muito interessante, principalmente contado assim no jeito completamente fora de enciclopédia que ela tem. Chamando Wando, ele entrou, vestido todo de preto e começou a cantar.

Só que escutávamos todo o som como se ele estivesse acompanhado por uma banda imensa, com backing vocals inclusive, mas só ele e um guitarrista estavam no palco. A base musical era gravada e eu achei isso bizarro. Entretanto, fui pensando e já não estava mais achando tão ruim, afinal alguns shows são tão ensaiadinhos que uma banda tocando no palco ou num arquivo MP3 dá no mesmo (a Marisa Monte poderia fazer isso, aliás, com ela própria, e ficar em casa durante suas apresentações).

Estava suficiente para um show que me custou só R$ 7,50 – principalmente porque esse valor é bem inferior ao que eu pagaria se soubesse que Wando canta uma música olhando para uma calcinha, como se estivesse falando com uma mulher -, mas nada que um DVD não pudesse me fornecer.

Ele cantou três músicas e parou. Elke Maravilha (que durante o espetáculo todo ficou sentada numa poltrona ao lado direito do palco, iluminada por uma luz vermelha) fez perguntas sobre a carreira dele e sobre música, ele respondeu, fizeram piadas, conversaram longamente, foi divertidíssimo, então ele pegou uma guitarra e, sem nada falso ou invisível, começou a tocar e a cantar, apenas ele e a guitarrinha, a melhor de suas músicas: Moça. Isso foi muito, muito bom. Cantou mais uma assim, conversou mais com Elke e então, enquanto ele cantava Safada, entrou no palco Rita Ribeiro.

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Pois Rita Ribeiro é uma cantora maranhense que eu, ignorante completo, desconhecia. Li algumas coisas sobre ela antes de ir à apresentação, mas nada do que eu li me deu a idéia de sua voz magnífica. Sem dúvida, umas das mais belas e límpidas vozes que já escutei (se não acreditam em mim, leiam o texto do Caetano). Para meu total espanto, percebi que muitas pessoas foram ao show por causa dela e sabiam cantar suas músicas.

Ela e Wando interpretaram Eu sei que vou te amar. A voz dela me deixou completamente emocionado, achei de uma perfeição imensa. Quanto a Wando, ele cantava lendo (e errando) a letra com excesso de ar na voz, como se estivesse resfolegante ou chegando perto de um orgasmo. Aliás, cantando as músicas que não são do repertório dele (mais duas vieram na seqüência) ele desafinou pra cacete. Mas isso realmente não importa, afinal o ambiente do show estava descontraidíssimo e quem fica cobrando afinação é jurado do Ídolos.

Então vieram as músicas que ela cantou sozinha, do seu próprio repertório (a propósito, ela é bem moderna, não é cantora de sambinhas que acha que vive em Copacabana em 1963, nem fica fazendo exageros ridículos com a voz, como muitas boas cantoras por aí), depois outra intervenção de Elke Maravilha, onde elas começaram a discutir sobre Roberto Carlos, e Wando veio de novo, pra cantar com sua banda invisível e, então, já no final, Fogo e Paixão, com os dois intérpretes jogando rosas e maçãs ao público, fechou este show animado, alegre, gostoso e muitos outros adjetivos positivos que você puder imaginar.

Fiquei muito feliz por ter ido e não saí com aquela sensação que o melhor era ter ficado em casa. Alguns shows têm assim personalidade e força próprias que nenhum DVD consegue reproduzir.

Fotos: Mauro Sampaio/Acessepiauí

A carta

Estava eu no cyber café para imprimir umas coisas (você sabe, pessoa sem impressora em casa tem que fazer peripécias pra conseguir uma folha pintadinha de preto), quando notei que o editor de textos do computador em que sentei estava aberto. Lá mostrava-se, pois, uma carta. Escrita em sete de fevereiro, é uma declaração de amor de um homem à pessoa amada – que, por venturas do destino, está distante. Sem mais delongas, colocarei trechos da carta aí, os quais eu, indiscretamente, copiei. Não havia assinatura, apenas a data.

Percebi que o rapaz escreve decentemente e não derrapa na gramática. É uma carta bem bonita, creio que muitos gostariam de ser seu destinatário.

"“Peguei em várias folhas de papel e pensei sobre o tempo que passei ao teu lado. Durante três anos, compartilhamos amigos, sentimentos, alegrias e tristezas, compartilhamos a nossa vida. Listei todas as experiências boas e más que consegui lembrar.


Comecei por lembrar. Recordar do dia que te conheci, do nosso primeiro telefonema, no meu embaraço ao ouvir a tua voz e o dia que pela primeira vez disse que te amava. Pensei também nas discussões que tivemos, não lembrei dos motivos pelos quais discutíamos, mas lembrei-me em como me sentia feliz quando conseguíamos conversar e resolver os problemas. Foi assim que aprendi a comunicar e ir ao encontro dos acordos, lembrei-me também quando fazíamos as pazes, essa sim era a melhor parte. Lembrei-me de todas as vezes que me fizeste sentir forte, necessário e especial. Do nosso primeiro encontro, do nosso primeiro beijo, do teu olhar, dos nossos momentos e do fim.


Enchi o papel com a nossa história, e, na medida em que as folhas iam ficando escritas, dei conta do quanto me ajudaste a crescer e a conhecer-me melhor. Eu teria sido uma pessoa diferente sem ti. Acho que é verdade quando se diz que é melhor amar e perder do que jamais se ter amado. O amor é sempre enriquecedor. A sua presença por mais fugaz que seja, deixa vestígios positivos na nossa vida. Como a flor beijada pelo sol abre em festa de cores, a criatura que recebe amor repleto de riqueza interior. O amor engrandece a alma e clarifica a vida. O amor assim nunca se perde.


Não importa que tu estejas tão longe, tão distante de mim, mas através do meu pensamento trago-te para junto de mim, para que possas receber o meu abraço e demonstrar-te o meu carinho e como ainda gosto de ti.”"

Meus amendoins torraram demais

Há uma menina em Minas Gerais que nasceu sem cérebro, mas já está com cinco meses de vida. Ela sente cócegas nos pés e, parece, reconhece sua mãe. Isso para mim tem duas explicações possíveis: ou o cérebro dela está no calcanhar e nenhum médico teve a idéia de lá procurar, ou é tudo uma encenação patrocinada pela Igreja Católica para desencorajar o emprego da lei que permite aborto em casos de anencefalia.

Mas não era disso que eu ia falar. Meu computador teve problemas e foi preciso formatá-lo. Por um lado é muito bom formatar o PC, porque assim ele livra-se de coisas inúteis, arquivinhos escondidos, programinhas que eu não desinstalo porque, um dia, poderei precisar – e acabo nunca usando. Por outro lado, recomeçar tudo do zero é sempre meio assustador. Todos meus ícones inventados, meus papéis de parede milimetricamente pensados, meus emoticons, minhas fotos do MSN, as configurações de menus, a disposição das pastas no desktop, tudo foi HD abaixo e agora tenho que tentar lembrar de como era e fazer igual – ou iniciar de um modo diferente.

Dá pra fazer mil analogias com a vida, não é mesmo? Sim, mas não farei isso, porque meu estoque de pseudo-lieratura pretensiosa não está muito cheio e meu cérebro não funciona muito bem para divagações no momento em que acabo de saber que Tori Amos lançou um novo disco.

Várias coisas me surpreendem e os CDs dela são uma dessas coisas. Quando vou ver, pá!, eles já existem e têm cada vez mais músicas (dessa vez são 23 faixas). Intitula-se “American Doll Posse” e tem lá suas histórias e suas estranhezas, que eu talvez conte depois de escutar.

A propósito, são incríveis os recursos de hoje em dia: antes de chegar nas lojas os discos estão na internet. Isso é terrível, coitados dos artistas... Pois é, eu sei, eu sei... I’m sorry, Tori, mas vou pegar o teu por aí (quando eu ficar rico eu compro – importados – todos os teus CDs e DVDs com encartes bem coloridos).

Fúria

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Meu filme preferido de terror com história interessante dos anos 70 agora não é mais A Profecia, mas sim A Fúria. Só a longa cena da fuga em câmera lenta e em silêncio (apenas com trilha sonora), terminando com uma pessoa estraçalhada contra o pára-brisa de um carro já valeria este primeiro lugar em minha lista (que nem existe, aliás, acabei de inventar). Mas a cena em que o cara paranormal gira no ar a namorada sangrando até a morte, acrescentada à cena final, com Amy Irving sensacional fazendo John Cassavetes explodir, me fez ter a certeza de que Brian de Palma era, foi ou, talvez, continue sendo (mesmo após retumbantes fiascos como Missão: Marte), um grande diretor. Não sei como posso viver sem nunca ter assistido a Carrie, a Estranha.

não sei o que é uma cunha

Quem assistiu ao Jornal da Globo esta semana pôde ter uma leve desconfiança (senão uma grande certeza) de que a emissora está fazendo campanha contra a aprovação de qualquer lei de discriminalização do aborto. A capa da última revista Época também trata do tema. Não li a matéria principal porque não está disponível no site e eu não estou a fim de gastar dinheiro em revistas semanais que daqui a menos de um mês vão custar 50 centavos nem sebo; mas há um "exclusivo online" com depoimentos de mulheres que já fizeram aborto. Tem lá Cássia Kiss, Vera Zimmermmann e Soninha. A mais sangrenta é a narração de uma advogada. Vou botar um trecho logo abaixo, já que está mais ou menos no espírito do filme asiático que eu vi. Para quem tem estômago fraco, imaginação impressionável ou está de estômago cheio não é aconselhável a leitura.

"Eu não sabia o que ia acontecer depois. Ainda fui trabalhar à tarde. O efeito veio às duas da manhã, quando eu acordei com cólicas muito fortes. Fui ao banheiro e vi o feto escorrer junto com o sangue. Mergulhei as mãos no vaso sanitário e tirei. Eu estava de quatro meses, o feto era do tamanho da palma da minha mão fechada no formato de uma cunha. Coloquei num pedaço de papel e fiquei olhando para ele, ele tinha os dedinhos formados. Eu queria olhar o sexo, mas não tive coragem. Eu sempre quis ter um filho homem, e até hoje só tive três meninas"

Um texto longo e dispensável

Um homem oriental, com uns 30 anos, fala de como sua mulher é artificial - cheia de silicone e botox -, fria, burra, e de como ele não se importa a mínima com ela. Vemos a mulher amarrada com cordões junto ao piano; sua maquiagem pesada toda borrada pelas lágrimas. Ele continua a falar de como a detesta, quando notamos outro homem na sala, perto da mulher, com o rosto um pouco pintado de preto. Ele diz que a mulher do outro, além de tudo, tem um amante. Notamos que ele segura um pequeno machado. Notamos agora também que o marido está preso pela cintura por uma corda vermelha. O outro homem, então, diz que vai dar uma chance para ele, que é um grande ator comediante. Tem que fazê-lo rir para que ele não continue a fazer o que está fazendo. O comediante, ao contrário, começa a humilhá-lo, dizer coisas detestáveis. O homem, claro, não gosta e vai em direção à mulher quando o comediante vira-se de costas, abaixa as calças e começa a rebolar. Em seu rosto vemos um grande esforço e, então, ele peida. Veste-se e vira-se. Agora notamos uma figura sentada no sofá, amordaçada. O homem diz que nos filmes o ator não tentava fazer rir com truques de baixo nível como aquele. Brabo, vai até a mulher e corta-lhe (mais um) dedo. O marido dela, apavorado, dirige-se à figura feminina sentada no sofá e começa a esgoelá-la, sussurrando que não está fazendo aquilo porque a odeia, mas porque o homem maluco assim quer. Ele aperta o pescoço dessa mulher até ela revirar os olhos e morrer. Então, a peruca dela cai, ele apavora-se, apalpa entre suas pernas e percebe que na verdade era um garoto. O homem do machado caminha até o garoto, encosta a cabeça perto da boca dele e espera para ver se ele respira. Ele não respira, mas, de repente, tosse. O homem com o machado vai até a esposa do outro e corta mais um dedo, pega os três dedos de sobre o teclado do piano e bate no liquidificador. Quando vai cortar a mão dela, seu marido tenta alcançá-lo, mas a corda é elástica e puxa -o de volta, fazendo com que ele bata e derrube a parede. Vemos então que estão em um cenário construído dentro de um grande galpão. O homem mau, andando, conta os segundos para que chegue o momento de cortar a mão da mulher quando escorrega em um anel dela que caiu de um dedo cortado. Escorrega e cai no meio das cordas que a amarram. Ela, desesperada, morde-o no pescoço até arrancar um pedaço. Assim, ele jorra sangue e morre. Ela cospe o pedaço de carne fora e vomita. Seu marido corre até ela e consegue alcançá-la. Pede que a perdoe, que ele fez tudo que podia. Ela diz, com sua boca suja de sangue, que entende, e sorri. Então, ele começa a falar como se ela estivesse no outro cômodo, dizendo que vai esquecer tudo, mesmo que ela tenha um amante. Enquanto isso, estrangula-a até a morte.

Pois é, fiquei vendo este filme porque foi algo realmente diferente que surgiu no meio da madrugada. Quando ouvi os atores falar, logo pensei, com meu vasto conhecimento em línguas orientais adquirido após duas temporadas e meia de Lost: isso é coreano. Pois sim, esse é seguimento do diretor coreano Park Chan-Wook dentro do filme Três... Extremos. Parece um pesadelo, é realmente interessantíssimo, principalmente porque eu não vi o início e não sei se eu entendi bem.

TV a cabo é mesmo uma fonte de coisas impensáveis. Acabei assistindo um documentário sobre crocodilos africanos. Quando a seca chega na planície é tristíssimo, eles têm que migrar até encontrar um outro rio ou um buraco na terra onde caibam e possam ficar até a estação de chuvas. Alguns não encontram nada e morrem secos no meio do caminho. Outros andam dias e dias através do deserto até encontrar água. Agora, imagine você vários crocodilos enormes andando no meio do deserto, cheios de fome e de sede. Pior do que qualquer filme de terror asiático.

Desobnubilando Sons 2

Então, tá. Após vários problemas operacionais, consegui colocar no ar mais um Desobnubilando Sons. Desta vez eu falo sobre a banda Humanos, um grande trabalho de músicos contemporâneos gravando canções inéditas de um compositor morto na década de 80, chamado António Variações.

Sei que o nome dele não é muito bacaninha, mas as músicas são de grande qualidade, principalmente com os arranjos e interpretações dos Humanos. Todo dia eu penso "por que no Brasil ninguém faz músicas assim?".