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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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Blog que ainda existe, apesar do tempo.

Vinicius, eu quero cantar!

O livro sobre Roberto Carlos é realmente muito bom. Fala o mínimo possível da vida pessoal do cantor (pelo menos até a página 290) e nos enche de informações sobre música brasileira, o cenário musical, histórias de artistas, fatos marcantes, pequenas particularidades que passariam despercebidas por alguém que quisesse fazer um livro-fofoca. Ao contrário disso, em boa parte das páginas (digamos, uns 12%), Roberto Carlos nem é o protagonista; o autor fica mesmo discorrendo sobre o que acontecia na música nos anos 50, 60 e 70 – e isso acaba sendo fundamental para entendermos como Roberto Carlos inseriu-se nesse contexto e qual a sua (grande) importância nisso tudo.

Pois lá pelas tantas, o autor passa a falar da figura do cantor-compositor, que até meados da década de 60 era praticamente desconhecida. Ou seja, havia os compositores e, um nível acima, os cantores, que eram os grandes astros - considerados, pelo grande público, os autores das músicas (alguns, inclusive, exigiam botar o nome nos créditos como co-autores).

O fato é que o negócio foi mudando a partir da emergência de Chico Buarque, em 1966. Ele foi o primeiro compositor a virar astro não só porque cantava, mas porque cantava suas próprias músicas (havia também o Roberto, mas neste caso existem alguma peculiaridades que eu não explicarei – tais peculiaridades, inclusive, motivaram a briga dele com Erasmo).

Bom, depois do Chico, os compositores perceberam “ei, se ele pode eu também posso!” e saíram por aí gravando e apresentando suas próprias músicas. A conseqüência foi ruim para os cantores. Acostumados, até então, a ter uma profusão de compositores à sua disposição, acabaram abandonados, tendo que gravar velhos sucessos ou implorar para alguém compor uma música decente para eles.

O livro traz alguns depoimentos de intérpretes, como Cauby Peixoto e Nana Caymmi, dizendo que a partir de então eles foram para o brejo. Mas o que me fez escrever este texto foram as palavras de Maysa. A cantora deu uma entrevista a uma rádio no início dos anos 70 e lá ela acabou com Vinicius de Moraes que, como os outros, decidiu sair gravando suas próprias músicas. Eis alguns trechos (façam o favor de ler tudo, porque deu o maior trabalho pra digitar):

“Vinicius devia dar chance um pouquinho aos outros de gravar as maravilhas que ele faz. Ele devia se recolher àquele maravilhoso compositor que é e permitir que os outros cantem também, não só ele. Porque isso é quase como se destruir. E um homem como Vinicius de Moraes não tem por que seguir essa linha que não é a dele. (...) Vinicius está meio embotado e muito a fim de ganhar dinheiro. E então cortou a onda dos cantores que poderiam valorizar muito mais as composições dele. E há cantores que estão precisando de música. (...) Porque para mim Vinícius merece respeito. E espero que Vinicius faça por merecer esse respeito. Porque ele não pode estragar aquelas músicas maravilhosas que faz. Porque ele estraga. Vinicius, você me perdoe, se não quiser perdoar, dane-se! Mas você estraga! Você quer se adaptar a um jeito que não é o seu. (...) Vinicius, eu quero cantar!”

ARAÚJO, Paulo César. Roberto Carlos em detalhes. São Paulo: Editora Planeta, 2006.

miséria é miséria em qualquer canto

Quando José Wilker disse que Babel era um filme que fingia ser bom, eu ri da careca dele. Eu já havia visto 21 gramas e ficado transtornado com aquela história sem linearidade sobre três pessoas unidas em sua desgraça. Havia visto também o trailer de Babel, com o qual fiquei emocionado por causa das músicas e das poucas imagens que eu olhei (eu desviei os olhos, pra não estragar a surpresa – trailers sempre estragam a surpresa). Ok, quando eu gosto de um trailer eu penso que o filme vai ser bom. Mas às vezes isso não acontece.

Devo admitir que José Wilker estava certo. Babel finge que é bom, finge que é importante, finge que fala de coisas contemporâneas, mas é um punhado de histórias forçadamente trágicas, que, juntas, não me levaram a lugar algum.

Senti, desde o início, o dedo pesado do diretor apontando: algo muito ruim vai acontecer, algo extremamente terrível você verá. Quando acontece o tiro, é logo nos primeiros minutos, e depois tudo gira em torno das conseqüências – ou das causas – do incidente. Gira, gira, até ficar tonto, e acabar num desfecho sem consistência.

Cada uma das partes de Babel daria um filme em separado, talvez até um belo filme. Mas assim, juntas, forçando-se uma aproximação entre personagens distantes, as coisas acabam ficando banais no que têm de mais profundas. A mais marcante das histórias é a da babá que leva as crianças para o México e depois não consegue retornar. Adriana Barraza é uma atriz impressionante. A história da garota japonesa surda não tem nada a ver com nada e sobra no roteiro, apenas dando um ar de modernidade para, em material de imprensa, falarem sobre “a globalização e a tecnologia no mundo atual”. Já Brad Pitt cheio de rugas num quartinho no Marrocos será sempre Brad Pitt cheio de rugas num quartinho no Marrocos. Mas e daí?

Em filmes assim eu fico tenso. Sei que tragédias acontecerão, vou tentando preparar minha mente para o sangue e a morte e tudo que acontece torna-se motivo para eu ficar alerta. Fico a toda hora imaginando que as crianças vão ser atropeladas, ou a menina vai ser estuprada, e tento não ficar tão atento a ponto de me assustar quando o fato acontecer. Só que, quando o fim chega, e ninguém foi estuprado nem atropelado, isso acaba sendo frustrante – principalmente porque não há um substituto emocional para a tragédia anunciada. Na verdade, o diretor quer que certas cenas sejam grandes e impactantes, só que com a lengalenga que o filme se torna, sempre com sua auto-importância corroendo-se a si própria, meu distanciamento foi inevitável. No fim eu já nem me importaria se todo mundo fosse atropelado ou estuprado no deserto por jovens japoneses descabelados.

Terei que ajuntar a meu texto um trecho de uma crítica do uruguaio Enrique Buchichio que diz mais ou menos o que eu disse de um outro modo e - muito mais sonoro - em espanhol:

Pero la seguidilla de padecimientos entre trágicos y absurdos a los que Babel somete a sus personajes luce forzada, pretenciosa, irritante y, lo que es peor, carente de casi todo interés emocional, logrando provocar lo último que una película debería provocar en su espectador: el más mínimo interés por la suerte de sus personajes.

Babel es una película manipuladora en el peor de los sentidos posibles: te mantiene todo el tiempo con la sensación de que algo terrible va a pasar de un momento a otro, generando una tensión falsa (mexicanos a los tiros en una fiesta, una muchacha deprimida demasiado cerca de un balcón a gran altura), y cuando realmente algo pasa termina siendo un golpe bajo efectista y exagerado

Onde está a perna?

Meu texto de ontem deve ter causado grande repercussão, pois o G1 entrevistou o Lasier sobre o vídeo da uva elétrica. Achei a atitude dele em relação ao episódio típica de quem não faz yoga.

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Ganhei o livro do Roberto Carlos. Achei que seria preciso tê-lo antes de ser proibida sua venda e virar raridade, custando 5 mil reais daqui a dois anos. Lê-lo-ei insistentemente. Vidas de grandes artistas são sempre interessantíssimas. Quando foi lançado, todo mundo falou a respeito, ouvi muitos elogios sobre o aspecto histórico, sobre a pesquisa que o cara fez, sobre os dados que ele traz. O processo do cantor desviou um pouco os sentidos, mas eu também processaria, afinal não é uma coisa muito boa se alguém saísse contando segredos meus por aí – principalmente se o segredo fosse tão cabeludo quanto uma perna.

Aqui do lado, Pederneiras

Sei que, teoricamente, eu não deveria expor em meu blog um vídeo de alguém levando um choque e caindo atordoado no chão. Mas isso talvez não se aplique quando a vítima é uma celebridade local e o caso aconteça ao vivo na TV. Por isso, quem quiser se deliciar sadicamente ao ver Lasier Martins tomando choque em meio a uvas belíssimas, faz um clic aqui.

Esse trecho do Jornal do Almoço de 1998 ou 1999 (percebam os lamentáveis cabelos da Cristina Ranzolin e o cenário vomitável) é sucesso no Youtube e inspirou as pessoas a fazerem versões, funks e remixes. Todos detestáveis. Agora, o que eu achei mais engraçado, além do “aaai, aaai” (ok, é muito engraçado...) é o titulo bem apropriado que alguém deu para o vídeo: O massacre da uva elétrica.

Lenda urbana e cálcio

Estava eu certa vez em minha visita diária – e aborrecida - ao supermercado quando avisto um homem e uma menininha entre caixas de leite. Eles olhavam na parte de baixo de todas, atentos.Vez ou outra a menina, satisfeita, estendia uma caixa e dizia: “ó, pai, essa tem o 1”.

Dias depois, encontro essas duas figuras fazendo a mesma coisa. Então, uma mulher aproximou-se e quis saber o que acontecia ali. O homem, como quem ensina os mistérios da vida, explicou que embaixo das caixas de leite há um número isolado dos outros. E esse número serviria para identificar quantas vezes aquele determinado leite foi reaproveitado. Isso significaria que, se não vendido, o leite voltaria para a fábrica, onde ele seria reprocessado e então embalado outra vez. Assim, apenas as caixas com o número 1 trariam o leite “virgem”, as outras todas eram leites velhos e – quem sabe – até estragados. “Ah, não sabia...” espantou-se a mulher, e foi pra casa achando-se mais inteligente.

Eu desconfiei. Pensei que não há tantos leites sobrando nas prateleiras para que sejam reaproveitados quatro ou cinco vezes, como alguns números contavam. Ainda mais porque cada caixa vale por meses, e durante meses elas seriam vendidas, com certeza. Também não haveria muita lógica em marcar desse modo o reaproveitamento do leite, pois deveriam haver leites de muitos lotes e de outros reaproveitamentos sendo reutilizados, não daria para controlar. E então, percebi o golpe letal na teoria: todos os números e datas impressos pelas produtoras de leite são carimbados, ao passo que os ditos números fatídicos são impressos, visivelmente, junto com a embalagem. Raciocinei que a empresa de embalagens não tem nada a ver com leite velho ou novo, e descartei com convicção os assuntos do homem e da menina neuróticos.

Só não sabia que isso atingia um status que ia além do Nacional. Pois encontrei esses dias um comunicado da Tetra Pak, lá perto das mesmas caixas de leite que o pai e a filha desbravavam. Dizia que tudo era mentira cabeluda, divulgada pela internet. E confirmava o que eu havia pensado: os números são impressos na fabricação das caixas, e têm relação com coisas que não interessam. Por lei, inclusive, é proibido reaproveitar produtos industrializados.

Enquanto isso vou me irritando com aquelas caixinhas novas, com uma abertura de plástico que faz tudo se derramar.

amigos (73)

Minha família sempre foi confinada lá no sul do estado e eu, vindo pra Porto Alegre, praticamente não tinha contato com niguém, a não ser através de minha mãe. Assim, tudo o que eu fazia, dizia, escrevia ou fotografava era alheio a todos, a não ser que eu mostrasse, contasse ou fizesse algum tipo de referência tipo "tenho um blog. sabe o q é um blog? não? bom, ok, acho que vai chover...".

Mas eis que tudo muda. E ontem uma prima me adicionou no Orkut. Uma prima lá da Vila da Quinta, onde nasci e onde mora meu pai ainda. Um lugar pequeno, desprovido de bobagens tecnológicas como a internet - pelo menos até um tempinho atrás. Agora minha prima tem acesso à rede, outros primos meus também já têm este terror moderno em casa ou no trabalho e eu estou ali, no Orkut, no meu site, aqui no blog, perceptível a todos. Me deu uma certa sensação de estranhamento. Agora podem ler meus recados, ou meus textos, ou ver minhas fotos e saber o que acontece. Podem estar lendo isto aqui agora e me achando um idiota. Quando me virem no Natal vão cuspir na minha cara.

No meu texto de apresentação no Orkut eu faço referência a minhas avós. Pois são avós deles também, me sinto como se tivesse xingado a mãe de alguém.

Uma outra prima falou comigo depois que eu a adicionei e eu não sabia o que responder. Muito sério isso. Gosto muito da minha família, mas ninguém tem muito a ver comigo e nossos diálogos prejudicam-se por causa disso.

Estranhíssimo é ver o nome completo deles. Não fazia idéia do sobrenome da minha prima, ou do meu primo loiro. E eles provavelmente não imaginavam qual é o meu. Nem adicionei os primos mais jovens - como o loiro - porque nem vão saber quem eu sou. Mesmo assim, estão lá, e podem ficar me espionando e depois contar tudo pra minha mãe. Vou tratar de me comportar.

Mas, pensando bem, isso pode dar matéria para futuras conversas. Já posso puxar assunto: “E o Orkut, hem?”.

Da cidade é senhor

Não estava exatamente calor, mas o sol forte me deixava vermelho. Eram duas e meia quando pela primeira vez vi o guindaste e percebi, com alívio, que não estava perdido. Lá, dentro de uma estrutura de ferro, o Laçador estava sendo removido. Na hora em que cheguei ainda estavam desprendendo a estátua de seu pedestal de concreto. Quando a última viga foi cortada, os operários gritaram de júbilo. Talvez o prefeito tenha gritado também, mas só notei sua presença quando fui atropelado por pessoas com celulares querendo fotografá-lo.

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Um piquete de cavalarianos do MTG precedeu o caminhão que levava o monumento ao seu novo local, 600 metros mais à frente. Mas eles não eram os primeiros da comitiva. Lá no início ia o carro de som, sobre o qual um grupo musical executava, ao vivo, o hino rio-grandense e músicas tradicionalistas. Assim que se fez a curva e todos entraram na Avenida dos Estados, o grupo, encabeçado por Norminha Duval, começou a tocar o que poderia ser conhecido como “o melô do laçador”. Uma música que dizia, no refrão: “laçador, laçador / da cidade é senhor / há no laço que tem na mão / mais amizade e amor”. Para sempre lembrarei disso, pois escutei cerca de 40 vezes por todo o trajeto.

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O novo local da estátua, o Sítio do Laçador, ainda não está totalmente concluído – planeja-se inaugurá-lo mês que vem. Lá o símbolo oficial do Rio Grande do Sul descansa sobre um pedestal de 3m 50cm que imitará, em breve, uma coxilha verde (embora no momento tudo seja apenas barro vermelho).

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Dezenas de pessoas acompanharam a transferência, inclusive alguns cinco ou seis com a bandeira do PDT que, depois, conversando, chegaram à conclusão de que o partido precisa fazer bandeiras novas. O repórter da RBS, Jonas Campos, de terno e calça jeans, entrevistava algumas dessas pessoas, fazendo perguntas extremamente relevantes, como: “O lugar é novo, mas o amor é o mesmo?”.

© Fotos de Ederson Nunes

Kamen no Kokuhaku

Aproveitando que minha alma pequena devorou toda a criatividade que eu tinha para escrever no blog; aproveitando também que estou lendo isto, vou citar algum trecho do fantástico livro As confissões de uma máscara. É um dos melhores livros que li, contudo é um dos mais terríveis também, pois é tão autobiográfico que me dá enjôos – certas coisas eu não precisaria saber, mas ele contou assim mesmo e é fantástico, ao mesmo tempo que é desconcertante e, talvez, bizarro. Mais tarde falarei mais do Mishima, agora só vou citar algumas coisas, captadas ao acaso no livro:

“É uma fraqueza comum da infância pensar que, se se fizer de um demônio um herói, o demônio ficará satisfeito.”

“Em tempo algum estamos de posse tão completa de uma viagem, até seus últimos cantos e recantos, do que enquanto nos ocupamos com seus preparativos. Depois resta apenas a viagem mesma, que não é nada senão o processo através do qual perdemos nosso direito de propriedade sobre ela. É isso o que torna uma viagem tão absolutamente infrutífera.”

“De todos os tipos de decadência neste mundo, a pureza decadente é a mais maligna.”

alma pequena

"Seu cometário é extremamente infeliz no que tange a alusão ao público da peça SE MEU PONTO G FALASSE. Coisa de gente mediocre que para expressar as suas ideías tem necessidade de desqualificar outros. Não vou dizer que vc nunca viu a minha peça, porque se o fizesse seria tão preconceituoso quanto vc. Claro que é chato para alma pequena ver o sucesso dos outros."
Julio Conte

Caro Júlio,
Você escreveu um comentário em meu blog realmente impressionante. Não vou dizer que você está errado em se indignar comigo, porque eu estaria negando o meu direito de me indignar contigo.

Mas, se eu quisesse (e tivesse motivos para) desqualificar a sua peça, Se meu ponto G falasse, eu teria desqualificado. Não foi esse meu objetivo, e sim - fazendo uma leve citação no meu texto sobre Othelo -, marcar a reação do público como algo bastante infeliz. Público este, como comprovado pelo grupo de amigos que estava ao meu lado - e que saiu na metade -, acostumado (quando acostumado a algo em teatro) a ver peças leves, curtas, especialmente as cômicas, onde a atenção é a toda hora prendida, seja por piadas, gracejos, lágrimas, referências cotidianas, diálogos espertos etc... Tal não era o caso de Othelo, uma peça difícil, longuíssima e estranha, que nada tem a ver, por exemplo, com sua citada peça, e por isso causou estranhamento e chateou o público.

Nada contra você, sua esposa e seu grande sucesso.

Abraço,
Ederson