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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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Blog que ainda existe, apesar do tempo.

Dyonélio Machado nem sonhava

Há um ano eu escrevi um textinho falando sobre o livro A invasão dos ratos. Encontrei esse texto perdido enquanto pesquisava coisas para o levantamento cultural de 2006 que publicarei no próximo post, e resolvi deixar aqui novamente o trecho que lá citei. Gosto bastante, apesar de horrendo:

Berrou quando percebeu que alguma coisa estava A ROER-LHE OS TENDÕES. (...) Com a outra mão puxou o corpo e sentiu pêlos rijos. Tomado de pânico percebeu o que o agarrava tão monstruosamente. Era um rato! Mas era grande. Muito grande. (...) A dor que cegava parecia subir da perna até aos testículos. Mais dentes ferravam-se na sua coxa. (...) Dentes enormes que visavam a garganta ENTERRAVAM-SE-LHE NA CARA e arrancaram um grande bocado. O corpo deitava sangue enquanto ele gesticulava em redor. (...) Ratos! A mente gritou as palavras. Ratos a comerem-me vivo! Deus, Deus me acuda! Carne foi-lhe arrancada atrás do pescoço. Já não podia levantar-se com O PESO DA BICHARADA FELPUDA a alimentar-se do seu corpo, a beber o seu sangue. As sombras indefinidas pareciam flutuar em sua frente, depois A VISÃO INUNDOU-SE DE ENCARNADO. Era o encarnado de uma dor indizível. Já não podia ver - os ratos haviam-lhe comido os olhos. (...) Os ratos tinham-se REFESTELADO NO SEU CORPO, mas continuavam esfomeados. Por isso procuraram. Procuraram mais alimento do mesmo gênero.

nós pimba

Mais uma contribuição para o dicionário português-português que estou a preparar:

“não gosto de música pimba” = não gosto de música fácil, pobre, grudenta e pasteurizada tipo Vanessa Camargo, Banda Eva e Leonardo (ou, numa versão portuguesa, Emanuel).

Estendendo-me um pouco, diria que a expressão "pimba" no meio artístico é usada desde o advento de uma música do tal Emanuel (que é um tipo estilo Roberto Leal, só que mais jovem), lançada no meio da década de 90. A canção traz versos como "e se elas querem um abraço ou um beijinho / nós pimba, nós pimba".

Este é o último verbete do ano. Mas outros talvez virão em 2007, porque pesquisar em sites portugueses é meu passatempo preferido atualmente. Estou preparando uns negócios aí. Não vou explicar senão perde a graça, mas com certeza ano que vem saberemos mais sobre música contemporânea portuguesa (sem as pimbas da vida). A não perder!

...

Eu não sabia de nada e, de repente, num dia nada a ver, fiquei olhando o Ricardo Boechat falando indignadamente sobre alguma coisa no Jornal da Band. Em seguida, ele falou indignadamente de outras coisas, acompanhado por um indignado Joelmir Beting. Logo depois, todos já tomados pela total indignação que parece nunca abandonar os programas jornalísticos da emissora, começaram a falar mal da Editora Abril. Achei engraçado. Fiquei vendo uma matéria sobre o envolvimento da editora com militares na década de 60, os favores que recebeu dos generais, o caso dos hotéis Quatro Rodas, que viraram assunto de CPI, e outras coisinhas mais, todas bem sublinhadas pelo indignado-mor Flávio Panúnzio. Então, prometeram para o dia seguinte (sábado passado - e eu perdi!), uma matéria falando sobre a má-gestão das finanças da editora, e sobre como eles coseguem fornecer livros didáticos para o governo sem licitação.

A campanha de pixação à empresa dos Civita se dá, conforme explicaram (e o melhor é que eles explicaram), porque a revista Veja publicou uma matéria com alguma denúncia contra a emissora dos Saad, pois estes entraram no ramo da TV jovem, o que atinge diretamente aqueles, que detém a MTV no Brasil. Coisa boa de se ver. Pra se divertir é melhor que James Bond.
http://www.band.com.br/jornaldaband/conteudo.asp?ID=24315&CNL=1

Blond. James Blond.

Nunca em sã consciência eu vi um filme do 007. Sempre os trechos que eu via na televisão me levavam a crer que aquilo não era filme para mim. Lembro, por exemplo, de quando ele atravessou um rio usando jacarés como ponte, ou quando seu carro transformava-se em submarino, e outras coisas esdrúxulas que envolviam naves espaciais, canetas, pranchas de surf e esquis.

Daí fiquei interessado neste novo filme não só porque o protagonista é loiro de olho azul (e coisas que fogem de uma linha de produção estabelecida me parecem interessantes), mas porque, numa totalidade, todos falavam mal do Daniel Craig. Como eu gosto de coisas que desagradam as maiorias e tenham uma pitada de iconoclastia, eu decidi que estava na hora de ver o que o tal de James Bond fazia mesmo.

 

Fui, então, logo no Casino Royale, que foi o primeiro livro do Ian Fleming com o agente britânico. Parecia um bom início. Talvez eu preferisse ver a versão cinematográfica do livro feita em 1967, que virou uma comédia dirigida por John Huston e mais uns caras, só que isso dependeria de eu andar quilômetros até uma locadora decente – e esse não era o espírito da coisa.

Lá vem, pois, o filme. As primeiras cenas belíssimas, em preto e branco, granuladas, com muitas sombras. Isso não dura três minutos, mas fica uma boa impressão. Logo depois começa o corre-corre. Ao longo do filme não tem muita correria, só duas seqüências bem longas e bem chatas e bem cansativas. Essa primeira nos mostra que mesmo o Daniel Craig fazendo meses de musculação para dar credibilidade a suas ações, isso não deu certo, já que o que ele faz só o Homem-Aranha faria. A segunda seqüência de perseguições segue a mesma lógica da anterior: coisas impossíveis de um mortal fazer, brindadas ao final por uma explosão, só que desta vez o detetive deixa Peter Parker de lado para encarnar Wolverine.

Tirando essas duas partes que não dão para engolir, o restante do filme é bem aceitável. Principalmente porque é bem humorado, não se leva tão a sério a ponto de querer fazer com que o público acredite que James Bond tem mesmo que derrotar um terrorista numa competição de pôquer para poder prendê-lo e desbaratar sua quadrilha. A produção adota um estilo tão benevolente que transforma até uma sessão de tortura numa cena engraçadíssima.

Quanto a Daniel Craig, não poderia haver James Bond melhor. Sei que falam que Sean Connery foi o melhor, mas eu não vi, não sei e não posso opinar. Além disso, com certeza ele é o James Bond com a maior panturrilha de todos os tempos. Aliás, poucos seres-humanos têm uma batata da perna maior.

 

Sua parceira é Eva Green (de Os Sonhadores), vivendo a agente-contadora Vésper. Ela é muito magrinha e fica completamente desajeitada nas roupas de gala que colocaram nela principalmente porque o penteado é quase maior do que sua cabeça.

No que se refere ao roteiro, há duas possibilidades de definição: confuso ou ambíguo. O primeiro adjetivo é pejorativo, o segundo é geralmente o que se usa para definir filmes mais cults. Não há muita diferença entre ambos, a não ser o uso que o diretor faz da confusão/ambigüidade. Neste caso, o diretor Martin Campbell não faz grandes usos de artes cinematográficas, talvez por isso eu poderia dizer que o filme é mais confuso do que ambíguo.

Mas isso realmente não importa. Se a pessoa gostar, gostou. Se estender, entendeu. Uma coisa ou outra não vai mudar a vida de ninguém.

Divinal!

Tenho visitado sites portugueses para fazer algumas pesquisas e então às vezes me deparo com expressões de contentamento que soam mesmo como se fossem elas próprias contentes.

Para, por exemplo, dizer que gostou de um filme, um português pode falar:

_ "O filme é muito fixe!"

Ou, então, entusiasmado:

- " O filme é divinal!"

Isso sem falar nos "giras", já aplicados aqui no blog, em homenagem ao Sapo:

- "Como é gira aquele filme!"

Isso só não é melhor do que XPTO.

Boladona

Não deu para resistir, e vou contribuir para a cultura geral um pouco mais. Não sou daqueles que fica falando mal de funk, porque acho que é a expressão de uma cultura e blábláblá. Posso não gostar de funks mais chulos (apesar de achar Atoladinha uma música bem bolada, assim como Aberta e Assadinha), mesmo assim não tenho nada contra, afinal o que deveria desagradar as pessoas é o mundo da onde sai o funk, não o gênero musical.

Tá, mas digo isso porque a Veja desta semana traz um perfil da Tati Quebra-Barraco. O texto é contaminado por uma superioridade que significa: ela é podre e nós somos melhores – o que é algo comum e não vai ser percebido, porque quem lê também pensa desse modo.

De toda forma, a mulher é muito sincera nas coisas que fala, e achei isso bacana. Ao contrário de “estrelas” da alta roda, como Glória Pires e Cláudia Raia, que têm um jeito todo chique de damas mas fazem comercial até de samambaia carnívora – porque seus valores também não diferem muito dos de Tati, afinal elas também ambicionam jóias, casas e plásticas na bunda-, a funkeira assume as coisas na boa e não faz pose.

- (mostrando o RG) "Olha para isso. Olha de novo. Isto aqui assusta no escuro. Eu tô ficando filé. Eu tô ficando gostosa. Isso é bom demais"

- (Em 2004, pesava 92 quilos. Hoje, baixou para 57) "Foi tudo chupado mesmo. Só das costas tirei 9 litros de banha. Não faço regime. Como tudo, e muito. Adoro pé de galinha. Na minha casa, não pode faltar pé”.

- "Olha este cordão de ouro. Custou 15.000, minha filha! Eu é que não uso mais chapeado, que fica preto. Sou louca por ouro" - "Pobre não vai para a frente porque ganha dinheiro e já arruma duzentos gastos. Para que vou chamar estranho para limpar minha casa se tem minha mãe e as amigas dela que não têm dinheiro?"

- "Eu sou favelada, cresci com rato comendo o meu pé. Agora as patricinhas ficam aí rebolando com a minha música" - "Eu sei ler e escrever. Agora não me pede para escrever Stephany num autógrafo que não sai mesmo"

- (O que falta em sua vida?) "Ah, falta muita coisa. Botar meu silicone na bunda, comprar uma Hilux, abrir um restaurante-boate, posar pelada."

As crianças adoraram

silvio_santos_bambu.jpg

Às vezes acontecem coisas que são assim, bobagens, mas que acabam virando assunto, indo parar até na Folha de São Paulo. Minha vontade de entrar neste laço social me faz escrever aqui sobre a Maldição do Bambu.

É que há mais de vinte anos, em algum programa repleto de crianças do Silvio Santos, ele dava um prêmio para quem fizesse uma charada cuja resposta ele não soubesse. A menina de óculos tenta:

- Qual a diferença entre o poste, a mulher e o bambu?
- Hummm... não sei...
- O poste dá luz em cima, a mulher dá luz em baixo.
- E o bambu?
- Enfia no seu cu.

O programa Pânico passou isso na TV e na semana seguinte fez uma reportagem sobre a menina (agora uma jovem senhora), entrevistando-a e a seus familiares. Depois daquilo, dizem, ela nunca mais foi a mesma pessoa: ficou recatada, fechada, triste... Agora, ela só consegue andar se for usando uma bengala de bambu.

É muita bobagem junta, mas não deixa de ser divertido e algo criativo. Então, para ver o vídeo original (onde podemos escutar tudo explicitamente), clica aqui. Para ver a matéria com a mulher, pulsa acá.

Admirarás Kieslowski

Existe cinema na Polônia. Inclusive, um dos mais geniais cineastas é de lá. Krzysztof Kieslowski fez filmes inesquecíveis e inexplicáveis, e alguns destes estão passando na Casa de Cultura Mário Quintana, até sábado, às 20:30, só 2 pila – com legendas em espanhol. Trata-se do Decálogo, uma série de 10 médias-metragens originalmente produzidos para a TV. Espetaculares. Estou tentando ver os 10 (já vi 6 – estou merecendo um certificado).

Não é algo sobre o qual se fale sem entrar em devaneios teóricos profundíssimos e eu estou com sono demais para devanear profundamente.

Mas tenho que observar aqui as particularidades dos títulos. Em polonês, cada filme tem como nome o seu número. Assim, o segundo episódio se chama II. No Brasil, sempre com a criatividade intangível das pessoas, chamam os filmes pelo seu respectivo mandamento (digo “chamam” mas poderiam dizer “apelidam”, já que nunca foram lançados aqui, a não ser a versão longa dos episódios 5 e 6). Ficou ótima essa saída, aliás; títulos como Não Matarás ou Honrarás pai e mãe não é todo dia que se encontra. O que eu não compreendo é como é que traduziram o episódio 6 – lançado aqui em VHS – como Não amarás, se isso, obviamente (e eu demorei anos para perceber), não é um mandamento.

Flying saucers in the sky – PARTE 2: nas coxas

caetano_show_ce.jpg

E o show? E o show? E o show? O show começou mais de meia hora atrasado. Isso num pesado calor foi atordoantemente chato. Entrou, pois, a banda, tipicamente roqueira: guitarrista, baterista, baixista (ótimos, aliás) e Caetano, usando calça e jaqueta jeans. Então, ele fez algo que eu gostei muito: cantou 11 das 12 canções do novo disco.

Muito bom isso, porque artistas há que desprezam boa parte dos trabalhos recentes para tocar enxames de velhos sucessos só para agradar a maioria do público, prendendo-se em certa parte de sua carreira e não evoluindo. Ele não. As músicas outras que cantou, com exceção de três, não eram grandes hits. Cantou duas, em inglês, de seu disco Transa, de 1972, uma música dele que Roberto Carlos gravou em 1971 e outras de outros autores, além de uma inédita, Amor mais que discreto.

Tocou também London, London, Sampa e Desde que o samba é samba, todas em versões mais selvagens, com toques eletrônicos e arranjos sinistros (Sampa, quando iniciou, lembrou-me uma marcha militar, mas deve ser bobagem minha).

O melhor momento deu-se em Odeio, do disco novo, porque esta está completamente de acordo com o espírito do local: é um rock bem ritmado, com uma base forte, boa de cantar abertamente – tanto quanto Rocks, a mais conhecida (e uma das melhores) do disco.

Tenho que destacar aqui a iluminação sensacional (de Maneco Quinderé) que o espetáculo ostenta, que em Odeio tem um de seus pontos altos. Assim como em Minhas lágrimas, onde o palco todo é iluminado com luz negra e parece que uma aura envolve os músicos.

Para mim, o show teve mais o caráter de abrir conhecimentos. Desse modo escutei o novo álbum do cara (emprestado, porque tá caro) e gostei pra caramba (é criativo, novo, inteligente e bonito), fui procurar as outras músicas que ele tocaria (sim, fiz uma pesquisa e estudei antes), soube de coisas, li coisas. Isso foi ótimo, mesmo que na hora tenha sido (não por culpa dele), assim, meio nas coxas.

(foto de Keyla Reis - show de Brasília)

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