Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

Iš tiesų dalyvavau visose, ir mūsų intelekto vedliams?

Tá, comprei dois ingressos. E, por causas mil, acabei ficando com um ingresso a mais. Pensei, então, em convidar outra pessoa para ir comigo. Só que estava difícil achar alguém que estivesse disponível e com vontade de sair à uma da manhã do teatro. Tentei vender as entradas, mas não deu certo meu plano. Acabei dando uma pra um ser humano que estava por lá e entrei.

othelo.jpg

O que eu sabia da peça não era muito: era OTHELO- e Shakespeare é sempre interessante, o diretor era Eimuntas Nekrosius - parece que um dos maiores do mundo, durava QUATRO HORAS e era em lituano. Levando em consideração que a Lituânia é perto da Rússia e fazia parte da União Soviética, pensei que o idioma poderia parecer com o russo. Como eu não sei nada de russo, isso não me adiantou minimamente.

De qualquer forma, havia legendas. E é algo estranho legendas no teatro, podes crer. Mas como acompanhar o desenrolar da história sem entender o que estão falando? A não ser que você saiba Othelo de cor, você vai querer saber em que parte do texto eles estão. Principalmente ao longo de horas escutando lituanos.

O lituano é uma língua quadradinha, daquelas que as pessoas parecem estar falando palavras feitas de cubos. No começo ficou engraçado, o som é estranho. Mas depois ficou sendo a língua mais apropriada para uma tragédia.

Eu nunca li a peça nem assisti nenhum filme além de um especial da Globo, que se passava numa escola de samba onde Desdêmona era a porta-bandeira. Sabia, portanto, que o Iago é um filha da puta que faz Othelo matar sua esposa (é, ela morre, mas essa é clássica há três séculos, não me queira mal por contar o fim).

Então, iniciou a peça e coisas inexplicáveis aconteciam. Com efeito, não dá para descrever o estilo do negócio. Talvez se eu disser que a primeira vez que Desdêmona aparece, ela carrega UMA PORTA BRANCA nas costas (uma porta, estou dizendo), com uma pequena cortina preta; ou se eu disser que durante quase todo o tempo do espetáculo, dois velhinhos ficam sacudindo, cada um, um galão de plástico com água dentro, no fundo do palco; ou se eu disser que os atores ficaram longos minutos como que representando a tripulação de um barco à deriva, com direito a pedidos de socorro a um suposto navio que passava ao longe, sem que isso, de forma alguma, tivesse a mínima relação com a história; talvez assim você compreenda um pouco o que se passou. (Por sorte achei fotos, senão achariam que eu dormi e sonhei com isso).

othelo1.jpg

De fato, era tudo completamente fora da compreensão. Eles conversavam - isso quando conversavam e não ficavam em silêncio olhando pelo furo de um vaso de barro ou arrastando bandejas de madeira -, conversavam sobre ciúme, traição, amor, mas faziam coisas completamente loucas que não tinham ligação com os diálogos.

O primeiro ato foi o mais maluco. E foi o melhor, sem dúvida. Toda a concepção visual e sonora era muito impactante, embora não fizesse sentido algum. O segundo ato, embora não tivesse mais sentido do que o anterior, foi mais comportado e, devo dizer, mais chato. Bem chato. Aí teve a hora que Othelo e Iago acenderam fogo em duas das bandejas de madeira e ficaram conversando enquanto empurravam-nas de lá pra cá. A cena durou longo tempo. A fumaça foi adensando-se. Tomou todo o teatro, e foi tirando um pouco da visibilidade dos atores, tudo tornou-se envolto na bruma e eu quase dormia. Cheguei a dar umas piscadas mais profundas. Até que alguém quebrou um prato. Em seguida, o pianista quebrou outro prato, e eu despertei completamente.

Sim, havia um pianista. Um cara que tocou umas músicas durante a peça e, no resto do tempo, ficou sentado na banqueta quase sempre, de cabeça baixa, usando casaca sem camisa. A trilha sonora, aliás, é linda. Boa parte dela tocada ao vivo pelo pianista e por um ator-trompetista.

O terceiro ato também foi bem monótono, mas igualmente delirante e isso foi, afinal, o que me segurou lá por quatro horas e vinte minutos. A morte da Desdêmona foi de arrepiar. O que se seguiu, porém, foi o mais cansativo (principalmente quando eu já implorava: por favor, acabem logo!). Othelo fica deprimido porque matou a esposa. Senta-se na cama. Fica olhando o corpo. Arrasta a cama. Há algo lá em baixo. Arrasta mais. São vasos de flores. Então ele pega um por um os seis vasos e enfileira-os perto da cabeça dela. Rega cada um deles. Joga água no chão em torno dela. Pega todos os vasos de novo e alinha-os entre as pernas dela. Nisso já se passaram mais de 10 minutos sem nenhuma palavra. E eu morrendo de fome, com minhas pernas endurecidas.

E eu sempre fico impressionado com a capacidade que os atores têm de dizer textos enormes em cena sem titubear. Em lituano, então, esse espanto dobra. O cara que fazia o Iago, por exemplo, às vezse falava como se narrasse uma partida de futebol (não é um metáfora), parado no palco, mexendo as mãos como um autista. Grande ator.

A cada intervalo (foram dois) uns 20% do público ia embora. Provavelmente pessoas acostumadas a ver Se meu ponto G falasse e coisas do tipo. Para elas, realmente, a peça estava sendo uma tortura. Já eu, cujo ponto G não fala, estava achando o máximo, embora achasse sinistro e sem sentido, além de bastante chato e cansativo. Mas não tem como explicar realmente a experiência de sair do teatro após ter visto a peça. Foi algo sensacional, que ficará marcado na vida de minhas retinas ainda não muito fatigadas. Vou me mudar pra Lituânia assim que possível.

othelo2.jpg

(a foto lá de cima é de Dimitri Matvejev. As outras são de Ines Arigoni. Divulgação do Porto Alegre em Cena)