Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

Nossa vida até que vai bem

TV a cabo é algo realmente supimpa. A gente troca de canal e pá!, já tá vendo algo que nem sabia que existia mas que nos chama toda a atenção. Pois estava eu ontem procurando algo para ver e de repente pá!, fiquei assistindo, pela metade, e por poucos minutos, um documentário que mostrava uma mulher, com seus 20 e poucos anos, viciada em heroína. Ela morava com uma amiga, namorava um cara que batia nela e tinha uma filha. A filha morava com o pai e ia visitá-la uma vez por semana, levada pela vó. Antes de sair com a filha, a mulher tinha que cheirar carreiras de heroína, por que assim não tinha perigo de se sentir mal. Ela não queria que a filha a visse mal. E ia falando isso e inalando o pó de cima da mesa. Chocante.

Então, foi ver a guria, uma menina de seis ou sete anos. Enquanto elas brincavam, a vó da criança, mãe da viciada, ficou falando com a câmera. Dizendo que não sabia mais como ajudar a filha, que já tinha feito de tudo, que o máximo que podia agora era isso: levar a neta até lá. E ia falando isso e chorando. E como pareciam normais as coisas ao ver as duas brincando no balanço! Mas a guria não queria passar a noite com a mãe, porque antes passava e via a mãe tendo crises por causa da droga, ou sendo espancada pelo namorado. Então aparece a mulher pedindo pra guria passar a noite com ela, e a menina olhava pra frente, como que lembrando coisas e respondia, mexendo na Barbie: não.

Nisso, fui interrompido por meu irmão, que queria me mostrar o jogo do sapo ninja no computador. Não vi no que desandou a vida dessas pessoas. Quase sempre esses documentários acabam em tragédia. Alguém deve ter morrido. E no final, o diretor deve ter dedicado o filme à fulana.

Mas daí então vi também Super Size Me. Realmente muito interessante. Você deve saber, aquele filme do cara que come só Mac Donalds durante um mês. Engorda 11 quilos, estoura todo o fígado, o colesterol vai lá nas nuvens, essas coisas. Mas, mesclado com sua desventura culinária, ele faz uma reflexão sobre a alimentação, obesidade, fala sobre grandes marcas e seus lobbys, sobre publicidade, sobre educação, vai em escolas mostrar o que acontece por lá (e é terrível). Algo meio Michael Moore, só que menos constrangedor. Um filme bastante importante. Todos que vivem neste mundo em que todos vivem deveriam vê-lo. Sim, deveriam.

Safári

Certa vez eu ia no aniversário da Helen, mas faltou água na minha casa e eu não pude ir sem tomar banho. Então, esta semana eu fui. Sozinho eu não teria ido, porque sei me locomover em Canoas tanto quanto em Bagdá, mas a grande Mônica Wagner me deu carona e pude comparecer.

De presente, depois de andar muito, após duas horas e meia de Superman sem comer nada, comprei um bonsai. Achei muito sinistro comprar um bonsai. Ainda mais um bonsai de rosa. E um bonsai de rosa com dois anos. Pensei que ele fosse murchar assim que saísse no sol. Mas se comportou direitinho.

Então, antes de sair de casa para encontrar a Mônica, perdi o manual de instruções. Sim, é uma planta com manual, algo sem igual. Fiquei dez minutos procurando o negócio, até encontrá-lo, no lugar mais absurdo que eu poderia ter colocado após ler. Daí, peguei o ônibus errado, jurando que era o certo, e desci duas quadras longe da Zero Hora. Mas tudo bem, o dia estava agradável.

Então, fomos de carro. Sempre achei dificílimo ali a saída da cidade, com aqueles montes de viadutos, placas, becos, ruazinhas. Por sorte eu não dirijo, nem tenho que passar por lá nunca. Então, fomos. Mônica telefonou para Helen, a fim de saber instruções. Com a desenvoltura de quem conhece o caminho e acha tudo fácil , a aniversariante disse coisas envolvendo um luminoso de boas-vindas, um posto de gasolina e um viaduto. Completamente envoltos em nosso recém adquirido conhecimento da geografia da cidade, entramos no viaduto, após o luminoso, e fomos parar num posto de gasolina. Mas não era exatamente ali, e ficamos sem saber o que fazer num lugar quase completamente escuro (a iluminação pública por lá é triste).

Perguntamos que rua era aquela e um homem todo sujo de graxa nos disse com grande gosto: Edgar Fritz Müller. Não era essa a rua. Mônica ligou, falou com a mãe da Helen e recebeu instruções de ir mais adiante umas cinco quadras, entrar na rua Eduardo Neves (ou Lopes), que tem um posto na esquina. Fomos cinco quadras para lá, e nada... Perguntamos para um cara que vinha andando, mas – notem bem! - ele também estava perdido. Perguntamos para uma mulher com uma criança, e ela nos mandou para o bar da esquina, depois de achar que íamos seqüestrá-la. No bar, um carinha muito conhecedor do local, nos mandou mais além, passar o matagal, e entrar na rua do antigo açougue.

O matagal era bem grande, mas a rua do antigo açougue de três pisos também não era a certa. Perguntamos o nome para um menino jogando bola. Aquela era a Gutenberg. Mais adiante, perguntamos para um cara sentado no meio-fio. A fumaça de seu cigarro ilícito entrou pelo carro e nos tonteou. Ele não sabia e disse gracinhas.

Acabamos entrando em lugar errado e indo parar lá no outro lado da linha do trem. Mais um telefonema, informações desconexas. Outro posto de gasolina, supermercado Rissul, batalhão do exército, estação de trem. Demos voltas ao interior do bairro, e nada. Quem salvou-nos foi o frentista. Então, entramos no viaduto certo, passamos o semáforo certo e, enfim, encontramos a rua certa.

Fui tirar o bonsai da caixa, achando que todas as folhas já tinham caído, mas estava lá, firme e forte, até um pouco sorridente.

E no aniversário, comidas mil. Comi até canjica com amendoim, que eu nem conhecia, e é adorável. E pinhão, sensacional. E muita paçoca. E um bolo que comeria muito, se eu já não estivesse repleto de açúcar. Aliás, fui pra casa pensando que as bactérias estavam atacando meus dentes. Mas talvez o ótimo quentão tenha embebedado todas elas.

Todos querem Viagra

Tá, daí fui numa entrevista de emprego. Fiquei mais de uma hora sentado pra chegar a minha vez, mas foi bacana, saí contente.

Enquanto esperava, pessoas deliravam ao meu lado. Estávamos em um café, ali no Bonfim, e todos especulavam o fato de um canal de TV chamar para entrevista em tal lugar. Já pensavam em prostituição, programas eróticos e sexo bizarro.

Uma mulher bem saidinha chegou depois de mim. Toda falante e sociável demais, sei tanto da vida dela agora que poderia fazer um documentário. E ela, que é carioca e morou na Bahia, agora está por aqui e não dá certo com os homens. Ela é bonita, mas não adianta, porque os gaúcho são tudo froxo. Ela vai nas festas e ninguém fala com ela. Às vezes ela puxa assunto, mas os caras têm vergonha de paquerar, se assustam com uma mulher tão avançada.

Teve aquela vez que ela foi numa roda de chimarrão num CTG e três caras ficaram olhado pra ela a noite toda, mas nem um foi lá na mesa convidá-la pra dançar. Se fosse na Bahia, os quatro estariam se beijando ao mesmo tempo. No Rio também, é tudo mais liberado, as pessoas são mais abertas, é só pegação. Mas aqui parece que os homens têm medo de chegar.

Mesmo quando ela sai sozinha, e não acompanhada da irmã ou de amigas, ninguém chega nela. Ela fica dançando esperando alguém, mas tem q ir embora antes que pensem que ela tá fazendo ponto.

Sabatella neles!

Tá certo, acabou. E quando começou eu não gostei. Até escrevi aqui minhas impressões a respeito e não eram as melhores. Mas foi avançando, e o Silvio de Abreu me deixou bastante surpreso ao conseguir escrever cenas muito boas, numa trama bem amarrada, misteriosa, interessante, diferente. Há um mês eu talvez colocasse Belíssima entre minhas novelas preferidas. Desde a volta da Bia Falcão, a coisa tomou um ritmo incrível, cheia de artimanhas que prendiam minha atenção. Mas daí o tempo foi desgastando. Ele tinha que escrever mais 30 dias e as coisas foram esgarçando, perdendo a graça. Daí já me dava sono na hora e eu dormia. Chegou, então, a última semana, mistérios mil para desvendar, e tudo acaba naquilo: Bia Falcão é o diabo na terra.

Simplificação besta. Assim como Gilberto Braga fez em Celebridade, colocando a vilã como a misteriosa assassina, colocar a vilã como a mentora do golpe sinistro é fácil demais para suprir as expectativas deixadas pela trama tão bacana. Algo mais interessante poderia ser inventado, com certeza. E, se pensarmos nos capítulos passados, essa solução não se encaixa.

Mas ok, nada importa realmente. O final teve coisas boas. Por exemplo, os personagens firmando-se homossexuais, quando nem eles próprios sabiam que eram. Ou já sabiam, mas escondiam bem. E, claro, a Bia ter ficado viva, rica e feliz, em Paris, ao lado do Mateus. É algo completamente fora dos parâmetros novelísticos, não exatamente por causa de a vilã ter ficado bem, mas porque ela ficou com um personagem legal, e não com um vilão também.

Só que o autor é que pensou que tava com tudo ganho e não fez um final mais decente, preferindo destacar tramas paralelas, quando o que todo mundo queria saber era do grande golpe.

Bia.jpg

E Júlia e Nikos juntos formam o pior casal dos últimos 80 anos. E Marcos Palmeira é o pior delegado-canastrão-de-orelha-de-pastel da teledramaturgia sul-americana. Mas a novela ficou ótima porque tinha grandes atores (e uma bela direção - exceto pela insistência em usar planos fechados demais): a Fernanda Montenegro, claro, com sua prosódia própria, Lima Duarte, Tony Ramos, Cláudia Raia, a Senhora Ponto Frio Glória Pires e Cláudia Abreu, sempre perfeita. Infelizmente ela participa do pior comercial dos últimos tempos, aquele do IG. Por essas e outras, Letícia Sabatella ainda é a melhor.

um pouco de clarice lispector

Seu segredo é um caracol. O cabelo é bem cortado, os olhos são delicados e
atentos. Sua cortês carne de nove anos ainda é transparente. É de uma polidez
inata: pega nas coisas sem quebrá-las. Empresta livros para os colegas, ensina a
quem lhe pede, não se impacienta com a régua e o esquadro, quando há tanto aluno
desvairado.

Seu segredo é um caracol. Do qual não esquece um instante. Seu
segredo é um caracol que o sustenta. Ele o cria numa caixa de sapato com
gentileza e cuidado. Com gentileza diariamente finca-lhe agulha e cordão. Com
cuidado adia-Ihe atentamente a morte. Seu segredo é um caracol criado com
insônia e precisão.

(C.L.)