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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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Blog que ainda existe, apesar do tempo.

É sempre uma aventura

Depois de uma mulher nas Lojas Americanas dizer que eu tenho sotaque espanhol, fui cortar o cabelo. Andei quase uma hora, procurando um lugar que se diferenciasse das barbearias onde eu tinha ido ultimamente, com velhinhos que cortam muito bem, só que fazem coisas muito comportadas. Eu queria algo um tanto diferente, sei lá o quê. Algo que me faça gostar um pouco mais do meu cabelo. Antes eu gostava muito dele. Antes meu irmão dizia que eu tinha o cabelo do Fox Mulder (dividido ao meio, assim caído pros lados) e eu achava isso bom. Mas tudo degenerou-se e agora tudo que tenho é um volumoso montante de fios sem forma definida.

Então eu queria achar alguém mulher ou afeminado para cortar. Andei quadras e quadras, e re-andei todas elas, espiando para encontrar. Tinha um salão que eu queria ir, mas estava cheio e com pessoas acocoradas na mesa da recepcionista. Tinha outros, ali na rua coberta, mas neles havia uma mulher e três velhinhos. Obviamente me passariam para um dos velhinhos e eu não teria cara para recusar. Tinha outros também, com o nome do cabeleireiro grande na porta e pessoas louras fazendo coisas difíceis de compreender, mas daí também já ia ultrapassar o orçamento.

Passei, já cansado, em frente ao Corte Zero. Tinha alguém afeminado e duas cabeleireiras. Pensei “vou ver se rola agora, ou vou marcar hora”. A recepcionista me deixou alegre e disse que poderia cortar naquele momento mesmo. Anotou meu nome e telefone - sabe-se lá por que motivo, e me passou para um velhinho barbeiro.

Sem escapatória, fui. Tudo bem, ele fez um corte comportado, mais longo do que eu vinha fazendo, e nada parecido com o cara que estava numa foto na parede. Eu olhei pro cara e perguntei pro velhinho: “dá pra fazer naquele estilo?”. Não importa o que ele respondeu, importa é que não ficou nada parecido. Até porque o cara era louro. E o barbeiro tinha mau-hálito e falava sobre futebol. Pior: falava sobre futebol comigo.

- Não... Bom, sim.

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Eu tinha visto o filme há uns anos e me surpreendi muito. Porque sabia que tinha sido um musical na Broadway (e no Brasil, com Miguel Falabella e Claúdia Raia, já dá pra imaginar) e não podia pensar sequer que a história fosse o que é. Até porque a única referência forte que eu tinha até então era Sônia Braga vestida de preto na frente de uma teia de aranha. Mas não tem nada a ver com musical, Miguel Falabella ou Broadway. O Beijo da Mulher Aranha é muito sério.

Pois acabo de acabar de ler o livro. São dois homens conversando. E o livro todo é 97% só a conversa deles. Não há narração, descrição, nada fora dos diálogos. E conforme vão falando, descobrimos que eles estão presos, num país sob ditadura, e que um deles é homossexual ("sou mu-lher") acusado de corrupção de menores e o outro é comunista revolucionário. Eles vão interagindo, conhecendo-se, influenciando-se, e acabam desenvolvendo uma relação muito profunda. E a partir do meio ficamos sabendo que há um propósito oculto nisso tudo, que leva a um final bastante inesperado.

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O autor é Manuel Puig, argentino, que lançou o primeiro livro perto dos 30 anos, porque antes tentava ser cineasta mas não rolou. O Beijo ele deve ter lançado no final da década de 70. Em 1985 virou o filme, dirigido pelo Hector Babenco, com o William Hurt ganhando o Oscar e a palma em Cannes pelo papel da mu-lher. É o personagem dele, Molina, que conta os filmes. Eu não disse, mas grande parte do livro passa-se em longas falas dele contando filmes antigos. Páginas e páginas assim, e é ótimo. Filmes bobos bem contados, como A volta da mulher-zumbi, parecem interessantíssimos, realmente. E a prosa do cara é tão bacana que dá pra imaginar todo o filme enquanto ele descreve as cenas.

Em enormes notas de rodapé o Puig ainda disserta sobre as várias interpretações da medicina e psicanálise para a homossexualidade. Fiquei sabendo de coisas incríveis que Freud escreveu.

O escritor mudou-se para o Rio de Janeiro na década de 80. Ao contrário do que eu havia dito, ele não morreu lá, mas sim no México. E pessoas algumas dizem que ele tinha HIV, mas isso não é certo.

Imaginem a Playboy

Tenho mania de ficar observando as fotografias das modelos em capas de revistas, para ver o que está se fazendo de photoshop por aí. Pra quem sabe algumas técnicas, dá pra perceber coisas absurdas. Há uns dois meses, tinha Carmen Verônica (aquela mulher da novela das oito) na capa de uma revista da Editora On Line. Fizeram tantas coisas no rosto dela, que parecia outra pessoa.

Em compensação, há aquelas que esquecem de usar o software e, sem noção de quanto a foto é ruim, as pessoas saem terríveis nas capas. Paula Buramaqui, ano passado, parecia uma bruxa, toda suada e cheia de manchas numa daquelas revistas que juntam fofoca e culinária numa edição só.

Mês passado, Carolina Dieckman parecia mulata na capa da Cláudia, junto com o filho (que é a cara do Marcos frota, coitado). E Carolina Ferraz jazia sem dimensões na Manequim numa foto com a resolução suspeita. Pois nesta mesma revista, este mês, Fátima Bernardes aparece muito bem, até parece uma pessoa séria. O desastre está em sua foto na capa da Nova. A mulher, coitada, ficou parecendo uma boneca japonesa. Enquanto na outra ela aparece com suas rugas e com uma pele normal - e bonita -, na Nova ela parece personagem da Casa de Cera. Querendo remoçar, em nome da beleza perfeita, deixaram-na falsa e irreal. Na verdade, hiper-real. E é interessante notar que as duas revistas são da mesma editora, Abril. Também é interessante perceber o quanto isso diz de cada publicação.

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De puro éter assoprava o vento

Bá, fiquei mais de uma semana sem escrever neste lugar, é quase um recorde. e isso sem precisar de esforço algum. na verdade, nem tive vontade. esses dias fiquei ocupado mentalmente por coisas bem boas. e, além disso, estava sem internet em casa. fiz até um textinho meio-poético falando sobre o que me aconteceu, só que achei desnecessário. mas agora voltei. e também não tenho vontade de escrever nada muito importante. então colocarei aí uma foto que tirei em uma apresentação da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, mês passado. e era isso. espero que a seleção brasileira exploda e, junto, os jornalistas infanto-juvenis da Globo.

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Not the Red Baron, not Charlie Brown

E aí, é assim o nome: Tori Amos. Talvez você nunca tenha ouvido falar. Talvez você tenha acabado de fazer alguma relação com Tony Ramos. Talvez, se eu não disser que é uma mulher, você não vá adivinhar. Eu não adivinhei. Conheci-a quando eu trocava cartas com um amigo, lá em 1999. Ele falou não-sei-o-quê, mas como morava em Taquara, só quis parecer culto, conhecia nada.

Meses depois, encontrei, na coleção de CDs de uma pessoa, Boys for Pele. Importado. Pesado. Tori Amos numa cadeira de balanço segurando uma espingarda. Em página interior, ela dava de mamar para um leitão. Encarte belíssimo. Fiquei curioso, pedi emprestado e foi um choque musical. Nunca, em minha vida interiorana de 19 anos, eu tinha escutado algo tão assim, diferente e maravilhoso. Eu escutava rádio, conhecia algumas coisas, mas nada nesse estilo para o qual não há nome específico.

Quando me perguntam: mas ela toca que tipo de música? Eu digo: é algo assim, tipo Björk. Não têm a ver uma com a outra, mas as duas não são facilmente colocáveis em prateleiras, então é um jeito de aproximar o que não está perto.

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O disco foi chocante para mim e até hoje é um dos melhores que já escutei. Muito, muito, muito piano, órgão, cravo, uns outros instrumentos e a voz dela, estupenda, muito aguda por vezes, muito macia outras horas, sensual, voluptuosa, charmosa, direta, transparente. E as letras, ah, as letras... Ali conheci o estilo que ela tem de cantar coisas que ninguém entende, mas que, algumas vezes, diz verdades lindíssimas. E mesmo quando a gente não entende nada, é lindo. Afinal, é música, não é bula de Cataflan.

Há aquelas explicações: "ela fez o álbum para reafirmar-se após a separação e por isso ela fala de blá-blá-blá...", "há 14 canções principais que remetem ao número de pedaços em que Osiris foi cortado e blá-blá-blá". Isso não interessa e é absurdo. Interessa é que escuta-se o disco e conhece-se o desconhecido. São 18 faixas, cada uma com sua identidade própria, todas mantendo uma coerência interna entre si, o que faz do disco quase um livro de histórias.

O álbum foi lançado em 1996. Antes, em 1991, ela já havia lançado Little Earthquakes, que também é genial, embora mais quadradinho. Traz músicas para se guardar no ventrículo esquerdo, como China, Winter (all the white horses are still in bed) e Silent all These Years. Em 1994 saiu Under the Pink, um trabalho menos certinho, o preâmbulo perfeito para o que viria. Ali, temos músicas que impressionam, como Bells for Her, The waitress (I want to kill this waitress) e Cloud on my Tongue.

No Boys for Pele há canções que não me saíram dos mais recônditos neurônios, mesmo ficando anos sem escutá-las. Não falarei nada sobre, vou colocar uns trechos aí. Escolhi aquelas que representam melhor o disco e cujos trechos soam bem assim isolados. Cada música tem altos e baixos, vai e vem, acende e apaga; o que temos aqui é só um pedaço, atentem bem.

Hey, Jupiter (Hey jupiter, nothings been the same)

Mr. Zebra (Ratatouille strychnine, sometimes she's a friend of mine)

Father Lucifer (You always did prefer the drizzle to the rain)

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O amor tudo vence

Fui experimentar roupas em uma loja. Minhas vestimentas andam ultrapassadas, e eu até consegui achar lá algumas coisas não muito feias. Enquanto eu botava e tirava moletons, um dos atendentes reclamava com sua colega que não sabia o que dar de presente para a namorada. Não podia ser nada caro, afinal dois dias depois eles poderiam brigar e ele ia ter que ficar pagando. O problema é que ela é muito mimada. Se ele der alguma coisa barata, ela vai achar ruim. Tem 18 anos e não trabalha, isso exaspera-o profundamente. Se não trabalhasse por não conseguir emprego, tudo bem, mas ela não se preocupa nem em procurar.

Verdade que estuda e ganha quase 500 reais de pensão do pai, mas a responsabilidade que o trabalho traz falta-lhe, e isso a torna uma pessoa talvez fútil. Quando ele tá bolado fazendo as contas, calculando pra ver se vai conseguir pagar tudo direitinho, ela vem e diz que precisa comprar uma bota nova ou uma calça pra combinar com o casaco.

A guria até já trabalhou uma vez, no bar da tia dela. Trabalhava só sábado e domingo, mas era demais para ela. Cansou e saiu, mesmo ganhando 150 pila por final de semana. E a mãe, ainda por cima, não faz nada, nem se importa que a filha seja essa futilidade crescente. E, pior, nem cuida as notas do colégio. Ele, sim, olha sempre o boletim dela e cobra melhores resultados. Porque, em parte, ele ajuda a sustentá-la, já que ela dorme dia sim, dia não na casa dele.

Vamos acabar com aquela vaca!

Quarta-feira assistindo ao Jornal da Globo, que se tornou, nos últimos tempos, o ponto de encontro de ótimas reportagens com algumas das mais risíveis matérias de oposição ao governo Lula, e outras coisas mais, vi algo que me lembrou por demais O Quarto Poder, filme marcante do Costa-Gravras sobre, justamente, o telejornalismo. </p>

Estavam lá falando sobre o detestável ataque à Câmara (pô, os Argentinos quebram tudo, mas não assim de graça), e, então, para complementar, fizeram uma pequena reportagem sobre quem era a mulher que arrebentou os terminais computadorizados com um pedaço de concreto.

Daí, foram até o bairro dela e mostraram a casa onde mora. Como não conseguiram, claro, falar com a mãe dela, pegaram uma vizinha pra dizer que “ela não devia quebrar as coisas dos outros”. Não sendo isso o suficiente, e para nos dar informações mais completas, foram entrevistar o importante HOMEM QUE PEGAVA ÔNIBUS COM ELA. Ele então, para espanto geral, revelou que “achava que ela fosse uma pessoa normal”.

Vovô adora Madonna

Estava eu passando inocentemente pela frente do mercado público quando deparo-me com uma muvuca. Havia um pequeno palco montado, saindo de dentro de um ônibus da Carris, e música tocando. As mais nojentas músicas dance. Várias pessoas olhando o que se passava: uma mulher, com aquela energia mortal de quem dá aulas de ginástica, ensinando uns passos para 6 ou 7 indivíduos mal-vestidos que se animavam a imitá-la. Seria alguma tentativa de marketing da empresa de ônibus normalmente ignorável se não fosse o velhinho.

Um velhinho subiu no palco. Vestia-se com uma calça social e uma jaqueta da mesma cor - uma espécie de verde -, usava chapéu e carregava uma pasta preta. Ao som daquela trilha sonora de gosto duvidoso, dançava. Ajeitou-se ao lado direito da professora energética e ficou lá dançando. Não obedecia aos passos que ela ensinava, apenas ficava balançando-se, sacudindo-se, agitando-se, às vezes batendo palmas. Sempre sorrindo, e seu sorriso insistente lembrava Robin Williams. Fiquei 15 minutos observando o show. Ele não se cansava, continuou lá animado, e eu fui pra casa dormir.

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A rodoviária de Pelotas tem uma arquitetura de outro mundo. Externamente parece um pagode japonês misturado a uma pista de esqui. Internamente, é um quase toda um vão frio, com uma gruta tenebrosa na parede, onde vive a estátua de uma santa e luzes. No segundo andar ainda está a réplica do mercado público feita em açúcar na Fenadoce há três anos, e goteiras. As rampas que dão acesso ao piso superior são a alegria da criançada. Eu me divertia lá, porque a gente vai subindo em caracol, sem parar. Vertiginoso. Há também o centro comercial, onde 80% das lojas vão à falência, e o cara que vende passagens e rouba no troco.

Antigamente o prédio era pintado de uma cor estranha, meio cor-de-rosa. O novo prefeito resolveu pintar de amarelinho (ou bege, ou algo por perto disso). Lá dentro há formas interessantes, que resultaram, algumas, nessa foto, tirada da escada e do início de uma das rampas, em setembro. Nunca subi pelos degraus sinistros; a rampa é muito mais simpática.

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Em cima de um cemitério indígena

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Moro em uma esquina da Rua da Praia. Na esquina em diagonal à minha há um prédio antigo, em cujo segundo andar funciona um restaurante e de onde as pessoas podem me ver estendendo roupa na sacada. No térreo havia um minimercado. Melhor dizer uma vendinha. Havia lá pacotes de bolacha, umas latas de extrato de tomate, uns sabonetes, leite, farinha, muitas canetas Bic e alguma coisa mais.

Seus donos eram dois homens gordos, um mais velho, de bigode, e outro uns 15 anos mais jovem e alguns centímetros mais alto. Ficavam o dia inteiro caminhando dentro do lugar, torcendo para que entrasse algum cliente. Invariavelmente entrava alguém para comprar cigarro, às vezes outro para comprar leite ou margarina. Mas, estava claro para todos, aquele não era um bom negócio.

Como são pessoas esperançosas, prosseguiram com tal vendinha por alguns anos. Até que cansaram, reformaram toda a fachada da construção e botaram para alugar. Uns cinco meses depois, alugaram.

Abriu, pois, há uns 30 dias, a Ótica Rio Grandense ali. A sina se repete: os funcionários ficam esperando que alguém bonzinho entre para lhes distrair as idéias. Geralmente, ninguém entra. E a atendente fica sentada, observando o movimento e pensando em sua vida amorosa - provavelmente trágica.</font>