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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

Mas, Joana, eles não reagem...

No começo de 2005 fui fazer pela primeira vez o teste de HIV. Apesar de não ter passado por situações de alto risco em 24 anos de existência (isso é mentira, mas relevemos...), eu estava um tanto nervoso, afinal nunca se sabe o que pode ter acontecido naquela noite, com aquela pessoa, uns meses atrás.

Daí, mais de um ano depois (agora em maio, portanto), fui fazer um novo exame. Desta vez, embora não tivesse muitas preocupações, eu tinha passado, sim, por situações em que qualquer vírus poderia ter me pegado de jeito. E isso ficava azucrinando meu cérebro. Dúvidas, suposições, presunções, imaginações...

Ao coletar sangue, é preciso assinar (ou não) uma autorização para que o laboratório colete outra amostra, caso o resultado seja positivo. Para isso, se for preciso, eles ligam para a pessoa marcando novo horário.

Eu assinei e passei uma semana temendo o telefone. E quando, terça-feira, tocou e eu não atendi, fiquei pensando que podia ter sido o laboratório, e que agora eu tava ralado. Quarta de manhã eu atendi e uma mulher perguntou "Sr. Ederson Nunes?". Quase caí do sofá. Mas era outro assunto.

Destarte, fui pegar o exame. Todo confiante, pois já que não me ligaram, eu não tinha nada. Abri o envelope e fiquei surpreso. Ali, escrito em letras negritadas, não estava escrito negativo. Nem positivo. Dizia "não reagente". Filhos da puta! Por que não simplificam? Tive que estudar pra saber que isso significava que eu não tinha nada no sangue. Daí, fui feliz pra casa. </font>

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Falando nisso, assisti a Rent. Trata de AIDS e outras coisas mais, assuntos de jovens drogados nova-iorquinos da década de 80. Mas é um músical, percebam. Uma ópera-rock. Chatíssimo. O diretor é um ridículo. Tem músicas legais, no entanto.Ah, e o cartaz é a melhor arte dos útlimos tempos.

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The extraordinary men

Com 12, talvez 13 anos, decidi comprar uma revista dos X-Men. Até ali, em matéria de quadrinhos, eu só lia amenidades. Na primeira história, Ororo Munroe tinha crises de consciência e se isolava numa montanha para pensar no passado. No céu, uma águia matava um pássaro. Bonito texto - pelo menos para quem lia Pato Donald até então.</p>

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Aí, fui lendo, fui conhecendo os personagens, fui sabendo da mitologia e gostando. Principalmente pelas características muito humanas dos X: eles têm graves crises, eles têm dúvidas o tempo todo, são tristes, mudam de lado quando acham que devem, e matam. Sim, não são que nem bobocas como o Homem Aranha, que dão a mão pro vilão quando este está caindo do prédio e então o vilão usa sua arma secreta e foge. Os X-Men gostam de aniquilar uns de vez em quando.

Mas o que sempre me chamou a atenção foi a questão profunda que se encontra por trás de tudo: a discriminação. Eles não são estritamente humanos, eles são mutantes. Eles têm o cromossomo X, que lhes dá características especiais. E, como dizem no início do segundo filme, o homem não é conhecido pelo desejo de compartilhar o mundo. São diferentes? Que se fodam! E, assim, ao longo das décadas, os X-Men foram enfrentando a tentativa de governos e da sociedade de segregá-los, prendê-los, matá-los ou curá-los.

Há o grupo mutante que acha que eles são superiores e que, por isso, se os humanos não querem cooperar, então têm que ser escravizados. Magneto é meu ídolo. Há o grupo que acha que não são nem melhores nem piores, apenas diferentes, e que, por isso, têm que tentar sempre viver em harmonia com a humanidade. Prof. Xavier acha que é Gandhi. Só que ele se fode, porque os humanos, em geral, desprezam os mutantes, assim como desprezam outras minorias. E daí há a questão: devemos ajudar quem nos despreza? Devemos proteger quem teme nossa existência? Devemos tentar o convívio com quem acha que somos anomalias, bandidos, assassinos, doentes?

Isso permeia quase todas as histórias. O segundo filme, lançado em 2003, trata muito disso. Embaixo da crosta de raios e explosões, é um filme bastante triste, sobre auto-aceitação e sobre o preconceito. Se minha família, meus amigos, meus colegas, minha cidade me despreza porque eu sou diferente, devo continuar sendo um bom garoto, ou devo arquitetar um plano para destruir todo mundo? Devo sentir pena de sua ignorância, ou odiá-los? Muitos paralelos podem ser traçados com a realidade, como percebe-se.

Em uma das cenas, Noturno pergunta para Mística, que é transmorfa - ou seja, pode adquirir a aparência de quem ela quiser: </font>- Por que você não se disfarça de humana e vive uma vida normal? E ela, muito politizada, responde: </font>- Porque eu não deveria ter que fazer isso.

Aí, agora, tem o terceiro filme. O que eu tinha para dizer a respeito, disse aqui. E percebam que há uma cena após os créditos finais. Eu não vi, mas há.

Fome zero

Por incrível que pareça é quase desconhecido aqui pelo Brasil o fotógrafo moçambicano (é assim que se diz?) Afonso Toledo. Ele tem ótimos retratos de africanos em seus melhores momentos - ninguém passando fome na fotos já é um modo de se destacar. Qualquer dia boto umas imagens dele aqui, agora não tenho nenhuma por perto...

No meio do sol azul

Não fiz este blog com nenhum projeto editorial rígido, mas desde o começo percebi que ele não serviria para eu publicar textos ficcionais meus. Embora tenha feito isso algumas vezes, vários meses atrás, inclusive com alguns poemas (ruins, menos os antigos), nunca me senti à vontade para fazer isso aqui. Farei novamente, já que conversar com a Katine me deixou com vontade. A apresentação visual dele fica terrível, mas ok. Ou era muito separado ou muito junto. Optei pelo que está aí:

 

Uma pincelada um pouco mais escura. Estava lá, ele podia ver. No meio do sol azul, uma pincelada se destacando. Aquilo não fazia sentido. Pintar um sol de cores inimagináveis significava algo que ele não entendia. Mas uma pincelada fora do contexto não podia ser ignorada. Aquele pintor ainda acha que é artista. Cobra caro, é arrogante, e pinta como se pintam paredes de vestiário.
Ele escutava a secretária rindo. Falava ao telefone. Ela ria baixo, pensando não ser notada.
- Secretária!
Ela se cala. As teclas começam a soar novamente, pesadas no silêncio quase derretido do edifício fechado.
- Secretária!
O som termina. O calor silencia.
- Você já foi até lá?
Ela não parecia ser a mesma mulher de ontem. Algo estava faltando.
-Meu nome não é Secretária, é Datilógrafa. Eu datilografo. Só isso.
- E onde está a secretária?
- Eu não sei. Onde está a secretária?
- De certo, andando entre rios. Adora margens. Margens são como fogueiras: um pouco para lá, um pouco para cá.
- Às vezes esta cadeira me dá alergia. Há cupins no pé da mesa. O que você quer?
- Um whisky. E um vampiro. Alguém com quem eu possa conversar.
Ele comprou um presente para a esposa. Uma caixa. Não lembrava o que havia dentro. Quando sacudia, sons agudos pequenos eram como gritos sob muralhas. Guardava no armário da esquerda, junto com as pastas azuis. Depois lembraria.
- Datilógrafa!
O som das teclas metálicas marcando o papel. Ela escrevia o quê, sempre? Por que ele tinha uma datilógrafa e não uma secretária?
Sua janela de vidro. Olhava para baixo e quase desejava cair. Uma atração pelo asfalto.
- Datilógrafa!
Silêncio. Calor. Um sol azul. Um pintor arrogante presente na sala. Ele sai. Aquela mulher.
- Gosta de pintura?
- Do que você está falando?
Sua voz era como uma expulsão.
- Não uso maquiagem. Pode me ver de perto.
- Não, digo pintura, quadros.
- Eu datilografo. Só isso.
- Já viu meu sol azul?
- Não sou louca.
Ele entra na sala outra vez. O silêncio já estava lá. Depois, teclas soando no ar, quentes como sopa.
Uma mosca solitária entre as fitas de vídeo. Um fio de cabelo jaz na prateleira. A mosca pisa sobre a linha fina equilibrando-se e quase mexe-a. A secretária, entre margens, caminha no chão molhado e acha anti-higiênico. Usava calças cinzas, agora usa vestidos laranjas, levemente suspensos sobre os joelhos. Mas a cicatriz ao redor do tornozelo não a deixa feliz.

(Ederson Nunes - 16/12/04)

Br Telecom hates me

Há meses, meses, meses venho lutando com a Brasil Telecom para que tirem da minha conta um serviço de internet que eu nunca pude usar. Em todos esses meses, meses, meses, eu ligo, reclamo, peço para cancelarem e solicito o valor de volta. Eles devolvem a grana e dizem, com toda certeza, que tudo foi cancelado. Daí, no mês seguinte, aparece de novo, eu ligo, reclamo novamente com 19 atendentes simpáticos que não sabem de nada e parece que resolvo. Até que em março apareceu na conta um pacote de pulsos interurbanos que eu nunca havia pedido na vida. Desde então, tenho que ligar e pedir para cancelar os dois serviços, repetir a mesma história 34 vezes e ficar no telefone quatro horas com outros atendentes simpáticos que não sabem de nada.

Este mês cansei. Ontem peguei toda a documentação e resolvi ir no Procon. Mas antes, como sou bonzinho, escrevi um e-mail pra companhia telefônica dizendo mais ou menos isso: VOCÊS VÃO SE FUDÊ. Então, me telefonaram hoje de manhã (rápido, bem rápido), dizendo que haviam cancelado tudo e que minha conta de maio é 85 reais, e não os 151 de antes. Que pena... ontem preparei tudinho, repassei toda a história e tava a fim de processar até o Jô Soares. Em seguida, pediria uma indenização por danos morais no valor de alguns mils e compraria um tênis novo.

Quero ser artista também

Pois fui pela terceira vez na Usina do Gasômetro zanzar, e aproveitei para dar uma olhada novamente na exposição das obras premiadas com o Prêmio CNI SESI Marcantonio Vilaça para Artes Plásticas. Coisas de nome grande geralmente não são grandes coisas. Foi o que eu pensei ao perpassar meu olhar cético pelos negócios estranhos nas vezes anteriores.

Mas ontem eu estava com boa vontade e com tempo de sobra. Olhei mais atentamente e não só isso: li o catálogo da exposição. Lá escrevem sobre cada artistas (são cinco), suas obras passadas e as por agora premiadas. Ah, foi outra coisa... Entender os troços ajuda a gostar.

Então, aquele monte de páginas de livro (aí, na foto José Paulo Lacerda) não foram enquadradas por acaso; a mulher sabia onde queria chegar. Nem aquelas telhas coloridas estão em vão lá paradas. E, olhando com atenção, percebi até a lógica das fotos da sala de aula e achei engraçadíssima a onda do mar no quadro-negro. Lendo sobre o que tratava, adorei as fotografias de Paula Trope de meninos da favela e seus morrinhos criados e fotografados por eles, tudo em processo pinhole.

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Não tem ninguém pelado, nem coisas escabrosas ou vídeos sem noção. Muito bom. Só vai até domingo.

Mutter

Tà, dia das mães e daí? Ninguém podia fazer nada hoje e eu fiquei sobrando. Mas já que não fui ver a minha, vou deixar uma foto dela com minha avó aqui, para servir de lembrete deste dia pachorento. Ia escrever algo, mas o quê? Acho que não gosto de escrever sobre minha mãe.

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O nome do bicho não é o bicho

Não sei exatamente a razão, mas as pessoas nunca me chamaram de Eder. Acho que não tenho cara de. Algumas até tentaram, mas vendo que não combinava bem, desistiram.

Em família, me chamam de Neco. Cresci sendo Maneco, em homenagem a um boneco idiota que na época em que nasci fazia xixi num peniquinho. Outras crianças me chateavam por causa disso. Depois, com a intimidade dos anos, diminuiu-se apenas para Neco. Do diminutivo Nequinho, nada usado, surgiu também Quinho, que meu pai usava muito, e Quinfus, que ele usa talvez até hoje. Quem na família não participa muito de minha vida ainda me chama do antigo Maneco e eu acho estranhíssimo. Pareço mais velho sendo chamado assim.

Lá pelos quatro ou cinco anos de idade, lembro de chutar a canela de uma tia porque ela teimava em me chamar de Ederson. Naquelas priscas eras, Ederson era bastante ofensivo. Eu não era Ederson. Que nome horroroso! Só fui me acostumar a ser alguém chamado assim quando entrei para a escola. Desde então, ninguém me conhecia mais como Neco e passei a aceitar, com dificuldades iniciais, meu nome oficial. Mesmo que ainda chupasse bico, eu era o Ederson.

Quando fora do ambiente familiar sou chamado de Neco, fico desconcertado. Certa vez, a namorada do irmão da minha madrasta encontrou-me no bar da faculdade. Eu reconheci seu rosto, mas quando me perguntou “Como vai, Neco?”, meu cérebro embaralhou-se, eu sorri e perguntei terrivelmente: “Eu te conheço?”.

Meu irmão e meu primo estão crescendo, e tenho que dizer-lhes que Neco é só meu apelido, que meu nome mesmo é Ederson. Muito chato isso. Eles não entendem direito o que é apelido, e acham Ederson um nome, como eu achava, bizarro.

Na segunda série, a professora pediu para que disséssemos que nome gostaríamos de ter. Eu disse Roberto. É o nome do meu tio e dá um apelido interessante. Se eu fosse Beto seria uma pessoa melhor.

Não é minha parente

Há meses conheço a mulher do casaco de pele. Ela fica sempre no Shopping Rua da Praia - na porta fumando ou na praça de alimentação. Ostenta bobs no cabelo, devidamente cobertos com um lenço cor-de-rosa, usa um vestido longo marrom, e carrega o casaco de pele. Sua figura elegante chama a atenção, sempre igual, sempre por ali. Nas últimas semanas comi em um restaurante no shopping e notei que ela almoça às vezes ali também.

Pois estava eu no tal restaurante quando ela chegou. Acomodou a bolsa e o casaco de pele na mesa e foi servir-se no buffet. Então, o gerente chegou para ela e disse que, como não havia pago das duas últimas vezes, não poderia comer agora. A mulher foi, enfurecida, até sua bolsa, tirou um telefone celular e, sem ter discado para ninguém, começou a falar bem alto, com um sotaque castelhano: “Estou no restaurante, disseram que não paguei a conta. Manda fechar essa merda! Fecha essa merda! FECHA ESSA MERDA!”. E saiu.

Sinto bucolismo

Show da Marisa Monte. Aqueles painéis luminosos indo e vindo o tempo todo me irritaram muito.

Ela é bem mais bonita pessoalmente do que nas fotos. Mas é quadradinha. Faz um show claramente muito ensaiado, com gestos muito ensaiados, toca e canta as músicas belamente, mas como se tivesse olhando-se no espelho.

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O show é completamente contido. Bonitinho, mas graça. E ela nunca dá espaço para as pessoas cantarem. Só lá no final, aí pede para a platéia ficar fazendo lálálá-u-lálálá. Deprimente. Todo mundo faz errado e ela diz que tá lindo.

Melhor momento: Pernambucobucolismo, que eu não conhecia e ficou extremamente interessante, até por causa dos refletores em gruas, como se fossem discos voadores sobre os músicos.

Um grande defeito dela é não reclamar das pessoas que tiram fotos com flash. Eu quero que essas pessoas sejam atropeladas e fiquem três meses em coma, acordando e verificando que seu manequim aumentou quatro números.

Ah, o percusionista parece o Caco Barcelos.

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