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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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A voz não precisa de Photoshop

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Quando eu escuto Tchaikovsky me dá vontade de ficar sacudindo as mãos no ar. Mas não era isso que eu queria falar.

Comprei o último cd da Fafá de Belém. E muitos estão lendo isso agora e rindo-se ("Há! Fafá de Belém é o fim da picada"). Pois é, há algum tempo eu também seria uma fonte infinita de desdém. Hoje não. Hoje eu respeito os artistas e suas escolhas, desde que sejam verdadeiras, e não cria de publicitários ensandecidos. Por isso, tenho gostado cada vez de mais coisas. De funk a Philip Glass, tudo pode ser bom.

Fafá era, nos anos oitenta, bastante parecida com uma tia minha. Isso me marcou, de certa forma, a infância. Não sei explicar direito, nem quero. Sem falar em seus peitos sobressalentes que marcaram a infância de qualquer um. Tenho um disco aqui cujo encarte são fotos de seus seios, devidamente cobertos, mas mesmo assim fugindo pela beirada do corpete. Desnecessário.

Isso sim, jogada de publicitário ensandecido. E ela estava em fase de ser corrompida pelas gravadoras. O disco não é ruim, mas a concepção é equivocada. Boas músicas são seguidas de músicas românticas em excesso, sem nenhuma personalidade. Isso fudeu intelectualmente a carreira dela ao longo dos anos, infelizmente, apesar de ser uma bela cantora. E também o fato de ter pendido sempre para o lado mais popular, ao invés de ter ido para o lado considerado mais nobre da coisa. Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante, vermelhão é um exemplo. É música da terra dela, é bacana, 80% da população sabe cantar, mas não traz prestígio a ninguém.

E daí eu soube que ela saiu da gravadora, agora no começo do século. Tem produzido independentemente seus discos. Grava o que tem que gravar, paga suas contas, e depois vai atrás de alguma gravadora interessada em prensar, distribuir e divulgar aquele disco já pronto. Eu nem imaginava uma coisa dessas.

Seu último trabalho, então, Tanto Mar, é dedicado todo a Chico Buarque. São 14 faixas, 15 músicas. Lindo disco. A voz forte dela está redondinha, agita-se quando tem que se agitar, acalma-se quando é necessário, vai lá, vem cá, tem sensualidade às vezes, tristeza em outras ocasiões, alegria, regozijo, seriedade. Muito, muito bom mesmo.

O melhor exemplo do que é Chico Buarque cantado por Fafá de Belém é Fado Tropical (que conta com a participação do Chico recitando os versos de Ruy Guerra). Ninguém faria como ela faz. Quando ela canta "Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal", é exatamente como uma Amália Rodrigues tropical. E é seguida por Tanto Mar (escrita em homenagem à Revolução dos Cravos), música que ela canta com o peito cheio e a boca sorrindo. Essa não é Tchaikovsky mas também dá vontade de balançar as mãos no ar.

Destaco também Bastidores, Gota D’água (com um arranjo tão bonito), Olha Maria (triste, triste), Minha História e Angélica (mais triste ainda – foi escrita em homenagem a Zuzu Angel, após sua morte). O que não se pode falar agora é que ela e seu trabalho não têm personalidade. Têm a personalidade de bons artistas.

A foto da capa (essa aí) é bem bonita. Mas não é recente, é da década de 70. E dá para perceber as photoshopagens.