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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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Histórias, histórias...

Era janeiro de 1995 e eu recém havia chegado do hospital, o rosto inchado, o dente rachado, sete pontos no supercílio. Na televisão, o show dos Rolling Stones não me interessava minimamente.

No final de 1994 mudei de vez para o sobrado onde minha mãe morava há mais um ano. Lá no bairro Santa Teresa, em Rio Grande, só conhecia o Tiago, cujo apelido era Bonequinha porque era bonito e andava sempre arrumadinho. Por algum motivo ele não me desprezava e se tornou meu amigo, embora na época eu não soubesse interagir com pessoas.

Meu contato social se dava através da janela do piso superior. Eu costumava ficar lá apreciando o movimento, especialmente nos finais de semana, quando havia jogo no campo em frente. Foi assim, e com uma ajudinha do Tiago, que eu conheci o pessoal da minha idade ali do bairro.

No Natal, Papai Noel não teve muito criatividade e deu bicicletas para 90% dos adolescentes; então grupos juntavam-se para pedalar e passavam pela minha rua. Numa atitude muito estranha, um desses grupos puxou assunto comigo, lá na janela. Entre eles estava a Luisa e eu passei a gostar dela. E ela passou a gostar de mim. Mas como eu não sabia andar de bicicleta, não tinha muito como ficar junto dela. Resolvi aprender.

Meu irmão tinha ganho uma bicicleta e havia um campo de futebol logo ali, era tudo que eu precisava. Por dois dias seguidos esperei a madrugada chegar e fui para o campo escuro. Começando do nada (ganhei uma bicicleta aos oito anos, mas minha total inabilidade obrigou meus pais a trocar por um guarda-roupa), me arranhei todo, me engraxei, caí no capim com cheiro esquisito. Mas insisti com sofreguidão e no fim da segunda madrugada já era um expert.

Na tarde seguinte, então, fui mostrar minha nova habilidade e saí pedalando, à procura do pessoal. Encontrei-os ali por perto, sem a Luisa; eles sorriram, me cumprimentaram e eu segui feito abobado, dando voltas na quadra sozinho.

Até que fui surpreendido por um soco no ouvido. Caí na calçada e dois caras chegaram e puxaram a bicicleta, mas me agarrei a ela e comecei a gritar. Me deram mais uns socos, uns pontapés, mas eu não largava. Pedi para que não levassem a bicicleta, que não era minha, mas que eu tinha dinheiro em casa e daria de bom grado. Eles não se interessaram, me bateram mais um pouco até eu largar e foram embora, levando ainda meu relógio e minha carteira.

Acho que eu entrei em choque. Meu cérebro não registrou mais nada, apenas duas cenas: eu atravessando a rua em direção à minha casa, cheio de sangue. Depois eu entrando na cozinha onde minha mãe cozinhava, dizendo alguma coisa e sentando à mesa, deitando a cabeça sobre os braços. Então, apaguei.

Na volta, o Tiago foi lá em casa me fazer companhia; se ofereceu para dormir lá, conversar, jogar video-game, mas como eu era idiota e não sabia apreciar um gesto amigo, neguei. Enquanto dizia que não era necessário, que eu estava bem, liguei a televisão e Mick Jagger cantava alguma coisa. Era, creio, 25 de janeiro de 1995. Já se passaram 11 verões.