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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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Leões onde?

Montgomery Clift era o bom moço de Hollywood no início da década de 50, era o galã sensível, o genro que toda mãe gostaria de ter. Ele foi um dos melhores atores de cinema de sua geração. Até que coisas aconteceram, seu cérebro e seu corpo foram deteriorando-se. Em Julgamento de Nuremberg seu personagem dá um depoimento confuso e titubeante. Dizem que foi assim porque Clift não conseguia lembrar das falas.

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Assisti a Os Deuses Vencidos (The Young Lions – nem um dos títulos faz o mínimo sentido, realmente). Sem, dúvida ele é uma atração dentro do filme, com seu jeito frágil e sua interpretação esclerosada. Parece que está perdido no mundo.

O filme é de 1958, Clift estava envelhecido e abaixo do peso. Já Marlon Brando estava bem forte e é incrível. Ele faz um oficial nazista. Nunca tinha ouvido falar nisso. Está mais loiro do que Paris Hilton na praia, com sotaque germânico e uma calma tremenda ao falar. As bombas estão caindo, mas ele nunca perde a classe.

Ao contrário do que se pode pensar, ele não é o vilão. É um princípio interessante, inclusive, do roteiro. Ele é um alemão que vê no exército um modo de subir de vida, acreditando na força de seu país, mas sem concordar com a matança e tal. Para os anos 50 acredito que tenha sido uma novidade.

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Esse filme junta os três atores com melhores nomes de todos os tempos: além de Montgomery Clift e Marlon Brando, Maximilian Schell. Ninguém chama-se melhor do que eles.

Schell, um puta ator alemão, quarenta anos depois foi engolido pela onda gigante que resultou da queda do meteoro em Impacto Profundo (que é um bom filme, apesar de não parecer). Enquanto isso, Brando pintava-se todo para aparecer ridículo em A Ilha do Dr. Moureau. Clift sorria de seu túmulo.

só pessoas

Às vezes fico feliz, porque conheço boas pessoas. Algumas não tão boas, é verdade, outras bem ruinzinhas também. Às vezes fico feliz porque conheço pessoas que são generosas, que são simpáticas, que são interessantes, que são repletas, que são conhecerdoras, que são diferentes e iguais. Às vezes fico contente, porque conheço pessoas que escrevem isso e isso.

Às vezes também fico triste, é verdade. Também pessoas me deixam triste. Tudo tem a ver com pessoas. Mas um dia escutei num filme alguém dizendo "são só pessoas". São só.

Eu aposto nas ameixas

Ontem, então, fui na estréia da peça Morangos Mofados, baseada no livro do Caio Fernando Abreu. É realizado pelo Porto Alegre em Cena, com colaboração da prefeitura. São sete contos do livro, alguns curtos, outros bem longos.

Como peça, é interessante. São nove atores em cena, que dançam antes, entre e depois de encenados os contos. Todos são bons em algum momento, embora em outros possam deixar uma impressão não tão satisfatória.

Às vezes cansa, como no “Caixinha de Música”, e daí eu penso “no livro é bem melhor”. E é. Ler os contos foi, para mim, uma grande experiência. Ver a peça não foi. Mas é um bom trabalho, incrivelmente dirigido por Luciano Alabarse.

Só fica mais dois dias em cartaz: hoje e amanhã. É lá no Teatro Renascença (Érico esquina com Ipiranga) e É DE GRAÇA. Começa às 21h, as senhas começam a ser distribuídas por volta das 20h.

Ah, a iluminação é bastante boa, de Breno Ketzer, assim como o figurino, de Rodrigo Lopes. Mas o tchan do espetáculo é a chuva (chovia.), durante ”Além do ponto”, que, aliás, é um de meus contos prediletos.

Mas o que mais me impressionou foi ler no folheto que “as pessoas envolvidas na criação artística deste espetáculo trabalham de forma solidária, SEM RECEBER CACHʔ. Quase inacreditável.

O último momento da peça é ”Natureza Viva”, quando todos os atores, um de cada vez (achei ótima idéia), interpreta este belo texto:

Como você sabe, a gente, as pessoas infelizmente têm, temos, essa coisa, as emoções. Infelizmente nós, a gente, as pessoas, têm, temos - emoções. As pessoas falam coisas, e por trás do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem há o que são e nem sempre se mostra. Há os níveis não formulados, camadas imperceptíveis, fantasias que nem sempre controlamos, expectativas que quase nunca se cumprem e sobretudo, como dizia, emoções. Por tudo isso, já não sou capaz de me calar, porque meu silêncio já não é uma omissão, mas uma mentira.

Bono vota no Lula

Eu não ia ver o show do U2 pela TV. Mas acabei vendo. Pronto. Aquilo sim é show.

Sábado assisti ao show dos Rolling Stones. Chatíssimo, sem atração visual além de quatro velhinhos se remexendo. Como não conheço as músicas, não fiquei interessado e dormi um bom pedaço. Achei quase tudo falso, forçado, superficial.

Poderia falar mal de Mick Jagger cantando Simpathy for the Devil há 40 anos, mas o U2 também não ficou atrás. Fiz até uma continha: das 23 músicas do show, 14 tinham 15 anos ou mais. Do último disco, que tem 11 faixas, tocaram seis. Mas do Achtung Baby, que é de 1991, tocaram cinco; do The Joshua Tree, que tem quase 20 anos, tocaram quatro. Achei covardia, numa turnê de um disco bom, tocarem aquelas músicas que todo mundo já conhece desde que nasceu e deixarem as novas de fora.

Obviamente, quem foi adorou cantar ô-ô-ô-ô em Pride. Mas talvez tenham achado desnecessário Zoo Station, The Fly e Mysterious Ways em seqüência, em versões um tanto desinteressantes.

Posso estar rabugento porque eu não fui, mas também acho que gastar 60% do tempo cantando os velhos clássicos é estratégia de artista em fim de carreira e eles não precisavam ter feito isso. No entanto, acho legal resgatarem músicas perdidas em discos antigos, como 40 e Electric Co (essa última não tocaram ontem, mas faz parte da turnê também, quando eles querem).

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Melhores momentos? The Edge tocando piano em New Year’s Day; Bono cantando sobre a tolerância religiosa durante Sunday Bloody Sunday e depois, de olhos vendados, andando até o microfone e acendendo um sinalizador vermelho; ele engrossando a voz e cantando a parte em italiano de Miss Sarajevo; a guitarra em Until the End of the World; ah, e o letreiro “Coexista” utilizando a crescente, a estrela de Davi e a cruz. Achei realmente bacana. Esse é um ótimo adjetivo: bacana.

Piores momentos? No show, nada ruim, mas a edição de imagens da (re)transmissão era horrível. E a legendagem foi completamente fora da casinha (até porque legendavam só até o refrão, depois desisitiam).

E, realmente, Zeca Camargo não tem noção.

Histórias, histórias...

Era janeiro de 1995 e eu recém havia chegado do hospital, o rosto inchado, o dente rachado, sete pontos no supercílio. Na televisão, o show dos Rolling Stones não me interessava minimamente.

No final de 1994 mudei de vez para o sobrado onde minha mãe morava há mais um ano. Lá no bairro Santa Teresa, em Rio Grande, só conhecia o Tiago, cujo apelido era Bonequinha porque era bonito e andava sempre arrumadinho. Por algum motivo ele não me desprezava e se tornou meu amigo, embora na época eu não soubesse interagir com pessoas.

Meu contato social se dava através da janela do piso superior. Eu costumava ficar lá apreciando o movimento, especialmente nos finais de semana, quando havia jogo no campo em frente. Foi assim, e com uma ajudinha do Tiago, que eu conheci o pessoal da minha idade ali do bairro.

No Natal, Papai Noel não teve muito criatividade e deu bicicletas para 90% dos adolescentes; então grupos juntavam-se para pedalar e passavam pela minha rua. Numa atitude muito estranha, um desses grupos puxou assunto comigo, lá na janela. Entre eles estava a Luisa e eu passei a gostar dela. E ela passou a gostar de mim. Mas como eu não sabia andar de bicicleta, não tinha muito como ficar junto dela. Resolvi aprender.

Meu irmão tinha ganho uma bicicleta e havia um campo de futebol logo ali, era tudo que eu precisava. Por dois dias seguidos esperei a madrugada chegar e fui para o campo escuro. Começando do nada (ganhei uma bicicleta aos oito anos, mas minha total inabilidade obrigou meus pais a trocar por um guarda-roupa), me arranhei todo, me engraxei, caí no capim com cheiro esquisito. Mas insisti com sofreguidão e no fim da segunda madrugada já era um expert.

Na tarde seguinte, então, fui mostrar minha nova habilidade e saí pedalando, à procura do pessoal. Encontrei-os ali por perto, sem a Luisa; eles sorriram, me cumprimentaram e eu segui feito abobado, dando voltas na quadra sozinho.

Até que fui surpreendido por um soco no ouvido. Caí na calçada e dois caras chegaram e puxaram a bicicleta, mas me agarrei a ela e comecei a gritar. Me deram mais uns socos, uns pontapés, mas eu não largava. Pedi para que não levassem a bicicleta, que não era minha, mas que eu tinha dinheiro em casa e daria de bom grado. Eles não se interessaram, me bateram mais um pouco até eu largar e foram embora, levando ainda meu relógio e minha carteira.

Acho que eu entrei em choque. Meu cérebro não registrou mais nada, apenas duas cenas: eu atravessando a rua em direção à minha casa, cheio de sangue. Depois eu entrando na cozinha onde minha mãe cozinhava, dizendo alguma coisa e sentando à mesa, deitando a cabeça sobre os braços. Então, apaguei.

Na volta, o Tiago foi lá em casa me fazer companhia; se ofereceu para dormir lá, conversar, jogar video-game, mas como eu era idiota e não sabia apreciar um gesto amigo, neguei. Enquanto dizia que não era necessário, que eu estava bem, liguei a televisão e Mick Jagger cantava alguma coisa. Era, creio, 25 de janeiro de 1995. Já se passaram 11 verões.

Bogie era um bêbado

"Às vezes, à noite, quando eu e Leslie ficávamos com ele para ver televisão, papai emitia sons como se sentisse dor, e aí fechava os olhos e fingia estar dormindo, de modo que se pensaria que estava apenas tendo um pesadelo."

Humphrey Bogart morreu em 1957, vítima de um câncer na garganta. Foi preciso ser operado para remover o tumor e, como estava já estabelecido no local, foi necessário remover os gânglios linfáticos, o esôfago, além de uma costela, a fim de poderem reacomodar seu estômago mais para cima. Desse modo, quando comia, o alimento caía diretamente no estômago e lhe causava náuseas. Viveu por um ano com a doença; morreu com menos de 40 quilos, aos 56 anos, após entrar em estado de coma.

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Acabei de ler Bogart – Em busca do meu pai, biografia do ator escrita por seu filho, Stephen. Não parecia, à primeira vista, ser um bom livro, mas é. O tal Stephen perdeu o pai quando tinha oito anos e viveu a vida toda com sérios problemas pessoas por ser o filho de um dos maiores astros de Hollywood. Pior do que ser filho da Xuxa. Repórteres perseguiam-no, todo mundo queria se aproximar porque tinha uma lenda como pai. Ele cresceu negando Bogart e só aos 40 e poucos anos, depois de passar por dependência química e outras coisas pouco boas, foi convencido por sua esposa a conhecer a vida do pai, sua carreira, relembrar a relação entre eles dois.

O livro foi um caminho para o tal Stephen fazer terapia. E uma maneira de eu saber que, certamente, não me daria bem com Bogie. Ele era irritante, implicante, gostava de discussões gratuitas e devia ter um constante bafo de uísque, porque bebia sem parar. Mas era, pelo que li, um ator dedicado, compenetrado, inteligente, que se preocupava com os roteiros e não fazia qualquer filme só porque o chefe mandava. Levou suspensão diversas vezes, quando existia o que se chamava “contrato de escravidão”.

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O único filme que vi com ele foi A Condessa Descalça, e não me lembro de muita coisa. Preciso ver Casablanca, Sabrina, O Tesouro de Sierra Madre, A Nave da Revolta, Uma Aventura na África e mais uns dois ou três.

Too much television

Vendo canais exóticos de tv a cabo, acabei conhecendo a Table Mate, uma mesa dobrável que vale por 18 mesas comuns, porque inclina-se em seis graus difrentes e tem três alturas distintas. Uma maravilha da modernidade.

Tive também algumas informações sobre a Ópera de Pequim e soube que lá criançam eram (ou são) torturadas para se tornar ginastas, dançarinos, lutadores. Jackie Chan estudou lá quando pirralho e sua história e a de seus amigos está no filme Painted Faces.

Soube de muitas outras coisas assim, fundamentais:

- Bruce Lee fez só quatro filmes em toda a vida. Morreu aos 32 anos, de um edema cerebral;
- A palavra “uísque” vem do irlandês “uisge beatha” e significa “água da vida”;
- A Escócia vende 31 garrafas de uísque por segundo no mundo todo;
- Em certas minas de carvão são utilizados parafusos de 12 metros para segurar o teto;
- Na estrada para Meca há uma placa que diz ser proibida a entrada de não-muçulmanos na cidade;
- Louis Pasteur descobriu que o levedo é um ser vivo;
- Todos os quatro filhos de George Foreman chamam-se George Foreman.

Prefeito moderninho

Vendo o Jornal da Record, que está muito mais animado agora com o Celso Freitas (Boris Casoy, adeus!), me deparo com uma matéria na gaúcha Cachoeira do Sul. O prefeito de lá decretou que todos os funcionários públicos do município são obrigados a ler pelo menos um livro por mês. Quem não lê, é demitido; quem lê, faz uma ficha de leitura e entrega na secretaria de comunicação.

Mostrou-se funcionários alegres com a medida e outros nem tanto, mas que iam na onda pra não perder o emprego. No final, a repórter perguntou para o prefeito se ele não achava essa uma atitude autoritária e ele deu a melhor resposta do telejornalismo nos últimos anos: "Às vezes é preciso acabar com os excessos da democracia". Voto nele.

O rei do mundo

Um dia, encontrou alguns macedônios que chegavam da margem do rio, carregando água em odres sobre burros. Como vissem Alexandre cruelmente atormentado pela sede, encheram de água um capacete e lho ofereceram. Alexandre perguntou-lhes para quem levavam a água. “A nossos filhos, mas se tu viveres, teremos muitos outros, mesmo perdendo estes”. Pegou o capacete. No entanto, levantando os olhos e vendo em torno todos os cavaleiros com a cabeça pendida para a frente, os olhos fixos no líquido, devolveu-o sem provar a água. “Se eu beber sozinho, esta gente perderá a coragem”. Os cavaleiros, admirando sua temperança e grandeza de alma, gritaram que os conduzisse para toda parte onde quisesse e chicotearam seus cavalos.

Alexandre era tão bonzinho, mas depois fica enlouquecido pelo poder e pela vaidade e se torna um tirano bobão, como se percebe no filme do Oliver Stone (se você não se distrair com os lábios da Angelina Jolie). Eu estou lendo é Alexandre e Júlio César – Vidas Comparadas, de Plutarco. Comprei por dois reais no mercado público, porque queria ler algo escrito por um grego lá perdido nos séculos. Muy bueno, embora ache que grande parte é invenção. De qualquer forma, isso não importa, é um bom livro.

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Nem sertralina resolve

As coisas podem não estar indo muito bem no mundo, mas nunca foram boas mesmo. A Bíblia é um bom exemplo de que, mesmo quando Deus falava com as pessoas, nada se resolvia do modo mais tranqüilo, todos pecavam sem parar e não diziam obrigado, por favor nem pediam licença.

Os filhos do Rei Davi eram uns sacanas. Amnom se apaixonou por Tamar, sua própria irmã. Fingiu estar doente, pediu ao pai para que ela cuidasse dele e, num dia em que estavam sozinhos, sugeriu que os dois transassem. “Aonde eu iria com minha vergonha?” indignou-se a rapariga, e o rejeitou. Mas ele, morrendo de tesão, estuprou-a. Depois de gozar, chamou seu serviçal e a colocou correndo pra fora do quarto. Tamar, muito louquinha, jogou-se cinzas por cima e rasgou suas roupas coloridas. O rei soube do acontecido, mas não fez nada, só “se acendeu em ira”.

Absalão, seu outro filho, ficou puto da cara e esperou dois anos por uma oportunidade para se vingar. Quando conseguiu, matou seu brother, Amnom, e fugiu. Passou anos no exílio e tramou uma rebelião para derrubar seu pai do trono, mas, depois de ficar pendurado pelos cabelos num carvalho, acabou sendo assassinado por Joabe, um dos comandantes de Davi, contra as ordens expressas deste. O rei ficou arrasado: “Absalão, meu filho! Quem me dera ter morrido por ti! Meu filho! Meu filho!”

É, life sucks…

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