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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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Lá na montanha

Filmes adultos não são muito comuns hoje em dia (não, King Kong não é um filme adulto, nem A Noiva Cadáver). É a juvenilização do cinema, você sabe, já deve ter lido algo a respeito. Filmes como BROKEBACK MOUNTAIN são marcantes. Porque tratam os personagens como pessoas, com todas suas problemáticas existências, desistências e resistências. E todo seu problemático amor. Todo seu problemático amor.

E, diferentemente de outros tantos filmes que trazem como protagonistas homossexuais, não é uma tragédia. O destino não abate-se sobre suas cabeças e os condenam. Não é um Monster da vida, está longe de ser Meninos não choram. É sutil, simples e profundo. E é normal. Não é um filme estiloso, não é um filme que agride, choca ou tenta ser simpático. É um filme que vem, mostra, diz, reflete, e se vai. É um daqueles filmes que não se assite, somente: têm-se uma experiência.

Garçom, aqui nessa mesa de bar

Sábado saí. Não estava bem em casa e resolvi sair "pra balada" como pessoas dizem. Umas das piores coisas de sair à noite é ter que pagar táxi. Ou ir a pé, passando por becos absconsos onde nem Jesus Cristo se sentiria seguro. Vou de táxi, cê sabe, e pago sete pila até a cidade baixa. Nunca gostei do bairro, mas ok, talvez seja o único lugar mais ou menos interessante onde eu possa chegar pagando sete pila pela corrida e ter à disposição várias opções de "divertimento" (tudo insuportavelmente cheio, quente e caro, é claro).

Saí para beber. Uma vez, falando com o Guilherme Castilhos, meu amigo na faculdade que dividia o mesmo gosto por falar coisas além da compreensão humana, chegamos à conclusão de que tínhamos vocação para alcoolátras. Eu podia me enxergar a viver cambaleando dentro de casa, com uma garrafa na mão, aterrorizando a família. Tentei isso algumas vezes, mas nunca consegui gostar de álcool. E também sempre tive a maldição de me colocar no lugar das pessoas e imaginar o que elas sentem, então nunca quis causar problemas maiores a meus pais, que teriam, obviamente, que me internar várias vezes para me livrar do vício após eu vender a televisão para comprar Caninha 51.

Mas naquela época eu não conhecia rum. Sábado, então, saí para beber rum. Cerveja á mais barato, mas não faz muito efeito em mim além de me encher a bexiga. Já com rum, depois da primeira dose o mundo já começa a ficar diferente. Sábado, depois da segunda dose, minha mente ficou depressiva, buscando todas as coisas desagradáveis que aconteceram mais ou menos recentemente e eu me tornei o personagem central da música do Reginaldo Rossi. Comecei a chorar na mesa do bar e a garçonete veio ver se tava tudo bem. Obviamente não estava, fiquei chorando tentando não chorar por uma meia hora. Depois passou. Tomei a terceira dose e, então, a boca ficou dormente, as mão distantes e os pés dois seres difíceis de controlar. Enquanto esses efeitos sobre mim estavam, pude testemunhar um dos apresentadores do Jornal do Almoço de Pelotas dançando de modo comprometedor durante muito tempo.

A quarta dose, então, fez com que eu tivesse que calcular cada passo ("um pé aqui, agora outro ali") e, pior, fez com que eu passasse uma cantada fora de hora. Depois de gastar 18 reais no rum, a festa foi acabando e eu tive que voltar pra casa. Não sei bem como foi que eu consegui lembrar a senha do cartão de débito, nem como consegui pegar um táxi e chegar em casa (lembro que dei o endereço errado pro taxista, mas corrigi a tempo). Infelizmente, apesar de ficar atordoado pelo álcool, eu tenho uma mente forte o bastante que me mantém ciente de meus atos e por isso eu não faço coisas absurdas. Pelo menos não até a quarta dose. Da próxima vez vou tentar a quinta.

Mazel Tov!

Pode parecer bobagem ou idiotice o que vou dizer, mas mesmo assim direi: Munique foi o único filme que me fez sair do cinema arrepiado. Outros filmes me deprimiram profundamente, outros me deixaram irritado, outros me deixaram com sono. Nem um havia me deixado arrepiado.

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Munique é muito estranho. Por ser um filme do Spielberg, eu não esperava coisas muito chocantes, mas fiquei com o queixo caído em algumas seqüências. Por exemplo, há uma cena de sexo completamente inútil, que aparece só para os personagens poderem falar que estão transando enquanto a mulher está grávida de sete meses. Eles transam de lado e dá pra ver a bunda do Eric Bana. Isso é bastante surpreendente.

Há uma das melhores cenas de morte da história do cinema: uma espiã leva dois tiros de balas pouco mortais em sua casa, vestida com um roupão aberto, deixando aparecer sua nudez; enquanto não morre, vai andando lentamente pela casa, abraça o gato que está na cozinha e senta-se na sala; tosse e sangue começa a sair do buraco que tem no pescoço; recebe um tiro no rosto e só então morre, toda nua; um dos caras cobre seu corpo, mas o outro vai e deixa-a exposta novamente. Demais!

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Para ler a crítica que eu escrevi, aperta aqui. Foi difícil conseguir escrever esse texto e ele não ficou satisfatório, porque aconteceram coisas que me deixaram muito atrapalhado para pensar direito. No entanto, está mais interessante do que a crítica destrutiva que a Veja publicou, dizendo que o filme é ingênuo e não toma partido algum. Isso é uma completa besteira.

Apesar de não ser moralista, o filme nitidamente demonstra que os palestinos são uns monstros insensíveis. No meio de todos os assassinatos, há uma conversa entre Avner e um membro da OLP. Lá o palestino expõe seus problemas, fala das famílias injustamente tiradas de seus lares por Israel e trancafiadas na Faixa de Gaza. Ok, ele tem bons argumentos, mas logo em seguida já o vemos junto com um terrorista e suas palavras perdem todo fundamento, afinal ele é o cara mau e tem que ser massacrado. Já os judeus são tão bons que pensam que não são tão bons e têm crises de consciência. Mas tudo certo, o filme é interessante assim mesmo.

Conselhos na Folha Universal

Tenho uma dúvida que me atormenta. Eu tinha um amigo que considerava muito importante; (...) Mas um dia tive uma grande decepção e percebi que ele não me considerava como amiga e achei melhor me afastar. (...) Será que estou desagradando a Deus por ter desfeito essa amizade?
Regiane Santos

Você tem que tomar muito cuidado com os sentimentos, que são uma praga para levarem muitos ao inferno.
Bispo Jeronimo Alves

Texto de remorso

Se arrastava na chuva. Perdido sobre o calçamento preto e branco da praça. Tinha medo e não via nada. Tentava ir para algum lugar por entre os pés que passavam pesados e ligeiros.

O morcego não via nada. Chovia. Ele se arrastava com asas. Dizia alguma coisa com voz finíssima e discreta. Ninguém escutava. Pés passavam rápidos e urgentes, sapatos cheios de morte, aqui e ali, quase sobre seu corpo.

"Pobrezinho" a mulher disse e chegou perto para acudi-lo. "Ah, não, é um morcego!" e saiu disparatada. Ele ficou lá, na chuva, falando com alguém. Talvez pedindo ajuda. Talvez xingando Deus, que o fizera tão sem recursos.

O morcego se arrastava e eu não fiz nada. Queria ajudá-lo, mas tive medo de tocá-lo e ele grudar-se a meu rosto, furando meus olhos com fervor.

Fiquei triste porque não pude ajudar o morcego. Deixei-o para ser pisoteado.

Violently happy

Björk é uma artista interessante. Tem mais de 40 anos, é baixinha e já ganhou a Palma de Ouro em Cannes por seu desempenho no filme Dançando no Escuro. Nasceu em um país que ninguém de nós vai conhecer e já deu um golpe de caratê numa repórter que a interpelou de surpresa no aeroporto.

Ela gravou um Acústico MTV em 1994. Visualmente é tenebroso. Não dá para esquecer seu vestidinho amarelo de menina pobre no verão. Ou a platéia apática. Ou a iluminação cafajeste. Mas também não dá para esquecer a tuba que surge de repente no meio de One Day. Ou o indiano tocando tambores enlouquecidamente. Ou o cara vestido de estrelas tocando copos com água. Ou a harpa. E o cravo. Musicalmente é rico.

Quatro anos depois, ela fez um MTV Live. Nesse, o visual é outra coisa, cheios de distorções de imagens, sobreposições, desfocos, alto-contrastes, sombras, edição muitas vezes criando um diálogo entre a cantora e os instrumentistas (dessa vez muitos violinos e arranjos eletrônicos). Perfeito. E sonoramente é ótimo, embora frio.

Um ano antes ela havia gravado Live At Shepherds Bush Empire, que é sensacional. Visualmente não há nada para se chamar a atenção especificamente, já que tem iluminação, cenários e edição de imagens muito boas, mantendo um quilíbrio interessante durante todo o show. Auditivamente falando, é fantástico, porque alia instrumentos isolados, como a bateria e o teclado, com os melhores arranjos eletrônicos que se poderia ter. E sem falar no inesquecível acordionista (ou gaiteiro, se fosse gaúcho) de camisa verde que a acompanha durante boa parte da apresentação. Tudo junto, é uma orgia musical.

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Como eu não tinha nada o que fazer, separei um pedaço do DVD, cortei, exportei e estou disponibilizando um trecho de Börk cantando Isobel com o Borghetinho oriental. Aperta aqui. Pesa só dois megabytes.

Sexta à noite, depois de ficar triste

Conheci São Jorge e o Dragão. Convidado por Graziana, fui nesse bar muito bacana ali na Cidade Baixa. Sambas ficaram tocando ao fundo enquanto a gente conversava. Depois aconteceu um pequeno show da Rita Maloca (que, apesar do nome, não é negra - na verdade, o espírito é esse: a cantora é branca, mas interpreta uma mulata), não tanto um show como uma representação musical da história da Rita e seus dois maridos, e, o que é mais legal, com músicas originais. Mas ela é daquelas pessoas que falam e mexem com o público e, sendo o lugar pequeníssimo, fiquei meio desconfiado que ela fosse me agarrar e isso atrapalhou um pouco minha atenção.</p>Depois de sair de lá, delirando na Lima e Silva, eu, Graziana e Katine decidimos ir até o Venezianos, já que elas tinham ido uma vez e gostado e eu nunca tinha ido e queria conhecer. Bom, o lugar me pareceu interessante e tinha música ao vivo muito boa (tocaram duas do Roberto Carlos!), mas estava tão cheio que era impossível andar. Os donos querem ganhar dinheiro enchendo o lugar e cobrando cinco reais de ingresso e não se dão conta de que se fechassem a entrada depois de uma certa lotação as pessoas iam aproveitar mais o local, ficar mais tempo e voltar outras vezes. </p>Foi uma ótima noite, até porque gastei menos do que pensava que ia gastar e estava em ótima companhia. Para voltar pra casa, peguei um daqueles taxis com o motorista tarado, que vai passando pela rua e comentando: "olha que rabo tem aquela mulher!". Muito divertido.

Flávio Alcaraz Gomes vomitou

Nas festas e reuniões comunitárias, Darci fica no lado das mulheres e Dida, dos homens. Dançam juntas nos forrós e quando algum homem pede uma contradança a Darci é preciso obter antes a autorização de Dida. Ciumenta, ela só concede se o sujeito for conhecido e boa-praça.

Leia essa matéria. É o fim da família brasileira.

Fazendo amigos pelo Orkut

Encontrei esse testemunho emocionado no perfil de alguém. (Moças inocentes, não leiam as palavras a seguir!):

Conheço esse cara muito pouco, mas já pude perceber que tem uma excelente vocação para Escravo... E o melhor, adora ser mijado.. Mijei um monte na sua cara e ele adorou!!!!
Recomendo fortemente...
Valeu Amigo!
Abraços

Jack Bauer dá uma surra em MacGyver

Tenho dúvidas quanto ao seriado 24 horas, da Fox, que a Globo exibe. Não sei se ele é irônico, conservador, xenófobo ou canalha. De qualquer forma, eu vejo todo dia. Jack Bauer é o cara: salva o mundo em apenas um dia e nem fica com cicatrizes. Os vilões são terríveis estrangeiros que querem destruir o povo norte-americano: eslavos, sauditas, mexicanos, iranianos. Ou norte-americanos que se deixaram seduzir pela lábia medonha de povos ameaçadores.

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Bom, não quero falar sobre arrogância estadunidense, nem nada do tipo. Afinal, se eles produzem a série, têm direito de se colocar como os mocinhos. E, como tem que haver vilões, nada melhor do que colocar aqueles caras de turbante que falam enrolado. O que me espanta ainda, desde a segunda temporada, é a instituição da TORTURA como método de trabalho. Jack é, era, já foi e às vezes continua sendo um dos principais agentes ou dirigentes da UCT, Unidade Contra o Terrorismo, uma espécie de polícia secreta e super-poderosa. Ele sempre tem apenas 24 horas para salvar o planeta de bombas atômicas, vírus mortais e afins. Sem muito tempo para dialogar, tortura todo mundo. Ou atira para matar. Na temporada passada, por exemplo, ele matou a melhor personagem, Nina Meyers, a sangue frio (ok, ela era A Malvada das três temporadas - tava envolvida em tudo e ainda matara a esposa dele), decepou a cabeça de um prisioneiro para reforçar seu disfarce, torturou mais dois ou três. Os outros agentes da UCT também utilizam-se desses métodos, e até o presidente dos Estados Unidos mandou torturar um de seus secretários - enquanto assistia pela televisão.

Nesta temporada, então, esqueceram os direitos humanos. Advogados? Isso não existe. Direito de ficar calado? Que nada! Torturando o filho de secretário de segurança por três horas, depois pegaram uma agente supostamente traidora e tacaram choque no pescoço dela, numa cena bastante forte (e pior que ela era inocente), e Jack, já no primeiro episódio, deu um tiro na perna de um cara algemado para conseguir uma informação e, depois, ficou enfiando um fio elétrico no ex-marido de sua namorada pra ele confessar o que não sabia.

Há observações que podem ser feitas quanto a isso. Tornar a tortura tão comum num dos seriados de maior audiência, mostrar como ela é eficaz, tira o peso de escândalos recentes que envolvem o exército de Bush, por exemplo. Quem vai achar errado que se maltratem prisioneiros, se a UCT faz isso todo dia em nome da segurança nacional? Como não podem prender, deportar, humilhar, desaparecer com suspeitos, se a segurança nacional está em jogo e é assim que Jack Bauer, o americano exemplar, procede? Como não podem espionar, vasculhar, invadir residências, se os muçulmanos e seus comparsas são uma ameaça à vida na Terra? Bom tema para uma monografia.

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