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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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Mexem em tudo

Estou em Pelotas, mas vou escrever sobre Porto Alegre. Passei uns 20 dias sem caminhar no Gasômetro e quando voltei a fazer isso, semana passada, fiquei pasmo. Aquele barco grandão que havia atrás da Usina e servia como lancheria, restaurante, sei lá, desapareceu. Em seu lugar tem uma draga fazendo sacanagens com o fundo do rio e estão aterrando aquela área. Para consolar, colocaram um barzinho amarelo meio sem graça flutuando numa plataforma ao sol, como podem ver na foto.

usina.jpg

Outra alteração na geografia das redondezas é a construção das obras permanentes da Bienal pelas margens do rio. Uma delas achei bem interessante: estão fazendo algo como uma arquibancada de concreto. Pra sentar e tomar sol vai ser uma beleza. Pena que para isso tiveram que retirar um monumento que era feio, mas servia de abrigo para a casa de um joão-de-barro. Mas bem feito, deveria ter construído numa árvore decente.

obra.jpg

Andorinha de asa negra aonde vais?

Madredeus.jpg

Madredeus vem a Porto Alegre. Uma de minhas bandas favoritas (mesmo achando errado chamá-los de banda) e eu não verei, por dois motivos: é caríssimo e é no Teatro do Sesi, lá onde a Assis Brasil faz a curva.

Pegaram pesado no comercial de TV, colocando O Pastor como trilha sonora (aquela canção sensacional que era da minissérie Os Maias) - ao mesmo tempo em que vieram com um papo de chamá-los de doces e dizer que, por isso, só poderiam ter vindo de Portugal - ridículo.

Uau, como eu queria ir num show calmo de alguém que eu conheça as músicas, sentado num teatro bacana, não tendo que ser espremido na multidão, nem que fazer a hola, nem sair cinco quilos mais magro depois de pular por duas horas sem parar no meio de uma platéia de adolescentes que me irritam.

Eles têm grandes letras, simples, algumas doces, ok, outras que parecem poemas do século 19. Uma delas é Ecos na Catedral (meu título predileto): "Teus olhos são vitrais / Que mudam de cor com o céu". Outra é A Lira:

Fui ao mar e não vi nada
Nem sequer onde estava
Só ouvia a solidão
Da cantiga qu'eu cantava
E senti-me só no escuro...



Tinham até camarim

Esqueci de dizer: nem um dragão foi maltratado nas filmagens do Harry Potter. É o que está escrito no final dos créditos, que eu esperei passar, todos, por 20 minutos, por que o sacana do Giovanni me disse que haveria cenas extras então. Ok, ele leu no Cinema em Cena, não posso culpá-lo muito. Mas foi um alívio, depois de ver os maiores créditos da História desde O Retorno do Rei, saber que os dragões foram respeitados.

Prefiro flores inteiras

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Vi e escrevi sobre Flores Partidas, novo filme de Jim Jarmusch. Esculhambei-o em meu texto, porque fiquei com raiva. Pessoas que vivem do cinema às vezes não tem uma boa idéia e fazem qualquer coisa pra ter seu salário garantido. Por isso admiro Terrence Malick, que faz um filme a cada 10 anos.

Flores Partidas nem é ruim, mas é inútil, não tem um porquê. E o final acaba antes de terminar, o que é frustrante e só serve pra gente poder fazer cara de inteligente e dizer "que diretor genial!" quando, na verdade, a gente pensa "que idiota filho da puta!".

Gandalf é um jedi

Percebendo que não faço parte, no Orkut, de nenhuma comunidade relacionada ao Senhor dos Anéis, fui procurar uma. Digitei Gandalf e encontrei essa:

Gandalf - o sacana
Por quê aquele velho sacana não levou o Frodo numa daquelas águias gigantes que ele controlava e, simplesmente, sobrevoou aquele vulcão maldito para destruir a porra do anel? Ele fez o Frodo sofrer durantes 3 filmes e passar por vários apuros enquanto coçava o saco.

E essa:

O Gandalf fuma crack
Pra todos q ja viram senhor dos aneis, e naum sabem o q akele velho fica fumano no caximbo, eu descobri o q q eh. nao eh maconha, nem tabaco, nem as ervas dakelas floresta escrota q ele fica dano roleh no filme, eh CRACK, esse velho tem 400 anos e axa q pode fica tirano nois, fumano crack sem si fuder, vai tomah no cu dos cara q fez esse filme e esse livro escroto da porra, cambada de filho da puta, vai tomah no cu.

Fui entrar numa aparentemente mais séria, Gandalf, the White, mas uma das comunidades relacionadas era Coca light tem gosto de abelha.

Entrei, então, na Gandalf, o Cinzento, porque tinha a grande frase "You shall not pass!", do primeiro filme. Na verdade, isso tudo é uma bobagem.

Morreu. De quê?

Morrer, em jornalismo, não é verbo intransitivo. É preciso haver um complemento. Ontem, no Jornal da Globo, anunciaram, tristemente, que o repórter Marco Uchôa morreu.

Mostraram uma matéria, falaram dele, que veio do nordeste pra São Paulo, vendeu chiclete no sinal e coisas assim de criança pobre, mas não disseram a causa mortis. Ele tinha trinta e poucos anos e não tinha razão para morrer. Deveriam ter dito alguma coisa. Já que interessa ao telespectador que ele morreu, interessa, também, a causa.

(Marco Uchôa é aquele cara baixinho, moreno, que fazia reportagens investigativas. Não confundir com Marcos Uchôa, o careca pálido que é correspondente na Europa).

Avada Kedrava!

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Ontem assisti a Harry Potter e o Cálice de Fogo, que estréia amanhã. Não vou escrever crítica a respeito, porque não vi os outros filmes e seria sacanagem dizer alguma coisa quando estou completamente por fora.Em termos gerais, gostei bastante. Pra se divertir é ótimo.

A melhor parte é quando entra em cena Ralph Fiennes. Quando escrevi aqui sobre o Jardineiro Fiel, disse que não agüentava mais sempre a mesma cara do ator. Bom, agora a cara dele tá bem diferente, sob uma maquiagem incrível que retirou o seu nariz. Pena que ele apareça só no final e fique pouco tempo. Ele e Potter protagonizam um daqueles duelos-de-poderes-que-brilham, me trazendo memórias do Mestre dos Magos e do Vingador.

No material de imprensa diz que, digitalmente, achataram e colocaram fissuras no seu nariz, para reforçar as suas origens sonserinas. Não faço idéia do que sejam "origens sonserinas", mas achei muito bom.

O filme dura duas horas e meia e tem seqüências escuríssimas. Talvez tenham tirado do orçamento algumas lâmpadas para economizar e construir o tanque gigantesco onde foram filmadas as cenas subaquáticas, no qual Daniel Radcliffe ficou submerso por 41 horas em três semanas.

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- Mas essa generosidade é terrível...

Ontem estava com dinheiro e com vontade de comprar um livro. Queria um romance, porque estou cheio de livros de outros tipos em casa, mas não tenho vontade de lê-los. Como na época da Feira do Livro eu estava na miséria, não pude nem garimpar coisas interessantes nos balaios obscuros. Fui no Beco dos livros aqui na Rua da Praia, que me é muito agradável. Investido de um sentimento musical, fui procurar algo sobre óperas, mas só tinha velharia cara; desisti. Coisas sobre cinema ou fotografia, nada a ver. Fui nos romances mesmo.

Comecei pelo W. Virginia Woolf, Mrs. Dalloway eu gostaria de comprar, mas não tinha. Fogueira das vaidades, do Tom Wolfe, tinha, mas era caro. Fui regredindo o alfabeto. Cheguei no Q. Os Maias seria um grande livro para ler, mas do Eça de Queiroz, que me agradasse, só tinha Primo Basílio. Peguei, ia comprar, mas achei que prosa do século 19 não ia me fazer feliz. Lembrei: O Tambor, mas não lembrava o nome do autor alemão e deixei de lado. Saramago, muito caro, assim como Thomas Mann e Sartre. Hemingway eu deveria ler, fui olhar, mas nada me chamou a atenção. A Mulher do Próximo, de Gay Talese, maravilhoso livro do novo jornalismo, a história da pornografia nos Estados Unidos, pegando, mais ou menos, como personagem principal o criador da Playboy. Tava por 10 pila, mas eu já havia começado a ler certa vez, e é bastante cheio de dados, sabia que ia me chatear depois de um tempo. Comprarei brevemente.

Lembrei de Raquel de Queiroz. Paola comprou O Quinze, semana passada, e eu fiquei com vontade de ler algo da escritora de novo. Mas o Memorial de Maria Moura tava caríssimo, em nova edição, não quis. Ali do lado, então, descobri os Graciliano Ramos. Perfeito. Escritor brasileiro, século 20, falando simples, que eu adoro e pretendo ler todos seus livros. Comprei Caetés, que era o único romance dele que eu não havia lido. O título, agora sei, refere-se ao livro que o personagem principal está mal-escrevendo, sobre índios, a tribo dos Caetés, só que ele não sabe nada de índios além do que leu em Gonçalves Dias.

A edição é de 1953, com capa dura vermelha e páginas carcomidas por traças há muito falecidas.Por sua antigüidade, a gramática é ancestral: os quase são quási e enviuvar tem trema.

Tô na página 66 e a história, percebo, é sobre um cara solteiro, que mora numa pensão e está apaixonado pela esposa do dono da loja onde trabalha. Se em Angústia, o protagonista comete um assassinato por ciúme após ser rejeitado, neste eu não faço idéia do que acontece. De qualquer forma, a prosa do Graciliano Ramos é estupenda, sutil, fluente, incrível. Leio muitos trechos em voz alta, pra perceber melhor. Vou terminar de ler em pouco tempo, e voltarei a procurar algo barato que me agrade. Gostaria de ler um livro imenso.

Peguei-te, leviana!

Já posso morrer intelectualmente feliz: fui na ópera ontem. Il Pagliacci usa de matalinguagem para falar de um grupo de atores que chega num vilarejo para encenar uma peça cômica sobre adultério. Só que, na vida real, a atriz principal está apaixonada por um camponês e o marido dela, ator e dono da companhia, é o ciúme em pessoa e ameaça matar todo mundo. Quando estão interpretando a peça, ele fazendo o Pagliaccio, e ela a Colombina, que tem um caso com o Arlequim, ele se enfurece com tudo e mata ela. O amante, na platéia, vai ajudá-la, e acaba morto também.

Já na última parte da ópera, um dos palhaços da companhia, Tonio, que ama a atriz mas é desprezado por ela por ser manco, entra em cena com um frango para o jantar. E adivinhem onde ele traz o frango? Hem? Hem? Hem? Numa sacola do Zaffari!

Estava enganado ao falar aqui anteriormente da duração da ópera: tinha apenas uma hora e meia. O ensaio teve quatro horas sabe-se lá por quê. Talvez o maestro tenha ficado torturando cada um dos membros do coral.

A ópera iniciou às 16:30 e o jogo do inter era às 16 horas. Lá pelo meio do espetáculo alguém atrás de mim falou, muito sério: "o jogo tá um a um". Pelo menos nem um tuberculoso sentou-se ao meu lado, nem alguém debilóide tirando fotografias com flash.

Para minha estupefação, havia legendas! Por um lado é bastante interessante para quem não fala italiano ou para quem fala mas não entende o que se diz gritando por sobre a orquestra. Por outro lado, desvia a atenção do palco. Bastava alguns minutos de leitura do programa para entender o que estava acontecendo. Mesmo assim, gostei de ficar acompanhando, minuto a minuto, os diálogos. "Peguei-te, leviana!" foi a melhor fala.

Quanto à ária que eu havia citado aqui, é a última do primeiro ato e se chama Vesti la giubba. Justamente quando Canio descobre que está sendo traído por sua esposa e, mesmo assim, tem que vestir-se de palhaço e interpretar a peça, fingindo que está tudo bem, fazendo os outros rirem, mas com a certeza de que sua mulher vai fugir com outro. Foi sensacional. Interpretação de Miguel Sanchez Moreno. Aí um trecho, traduzido do encarte do meu cd do Plácido Domingo:

Você pensa que é um homem?
Você é só um palhaço!
Vista a fantasia e pinte o rosto.
O povo paga para rir de você.
E se o Arlequim fugir com a Colombina,
ria, palhaço, e todos aplaudirão!
Transforme em piada tua agonia e lágrimas;
Transforme numa cara alegre teu soluço e dor.
Ria, palhaço, do teu amor arruinado.
Ria da dor que envenena teu coração.

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