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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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Trágico poeta

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No último ano do colégio, a professora Mercedes pasou para a turma um curto vídeo sobre uns poetas. Lá pelo meio, falavam de um tal Augusto dos Anjos, de quem eu jamais ouvira falar. Alguém lia um poema dele e eu, pronto pra não lembrar de nada depois da aula, escuto as estrofes finais dos Versos íntimos:

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa ainda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Não esqueci o poeta, não esqueci o poema. Fui procurar algo sobre ele na biblioteca e tinha, seu único livro, o Eu. Li. E Augusto dos Anjos tornou-se meu poeta preferido.

É difícil lê-lo porque, além de ter escrito lá no comecinho do século XX (os Versos íntimos são de 1901), ele fala de coisas que nem um outro poeta até então falava (bom, houve Cruz e Souza, anteriormente, mas Augusto vai mais longe). Ele esreve sobre morte, mas não aquela morte romântica ou simbolista: ele fala dos vermes, das sepulturas, dos cadáveres malsãos, dos coveiros; ele escreve sobre doenças e seus sintomas; ele cita cientistas; ele disseca a natureza e o corpo humano. E esreve tudo não com o objetivo de chocar ou ser diferente; ele, a gente sente, esreve sobre isso porque tudo isso o incomodava.

Ele era um homem amargurado, doente, trágico, sozinho, e punha tudo o que sentia cruamente no papel. Dentre seus tantos poemas magníficos, como Monólogo de uma sombra, Eterna Mágoa, O morcego, Psicologia de um vencido, o belíssimo A árvore da serra, meu preferido é e sempre foi Os Doentes: um poema-pesadelo longuíssimo em que ele reflete sobre o mundo, a morte, os excluídos, os tísicos, as meretrizes, os bêbados, os índios aniquilados. Eis um trecho, quando está falando da prostituta, cuja perversão dos sentidos é resultante de sua adaptação à baixesa do ambiente em que vive:

Entanto, virgem fostes, e, quando o éreis,
Não tínheis ainda essa erupção cutânea,
Nem tínheis, vítima última da insânia,
Duas mamárias glândulas estéreis!

O Eu foi publicado em 1912. No ano seguinto Augusto morre, vítima da tuberculose, aos 29 anos de idade. Órris Soares, um amigo seu, escreve na apresentação do livro: "O Eu é Augusto, sua carne, seu sangue, seu sopro de vida. É ele integralmente, no desnudo gritante de sua sinceridade, no clamor de suas vibrações nervosas, na apoteose do seu sentir, nos alentos e desalentos de seu espírito."