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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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A Casa de Quartos - Parte 3: Flores de plástico

Havia um quarto feito com uma parede de madeira que dividia a sala. Era pequeno e sua janela dava para a cozinha. Lá foi morar Eva. Era artesã. Fazia flores de material reciclado, especialmente garrafas PET. Muito bonitas. Não eram essas flores escrotas que comumente vemos, que nos dizem a toda hora: “olhe, somos uma garrafa de guaraná cortada em pétalas”. Não. Eram muito bem feitas, de vários tamanhos, tipos e espécies.

 

Eva tinha mais de 60 anos, era catarinense e ficava grande parte da semana trabalhando na sala, ocupando os sofás com todo o tipo de material e flores coloridas. Aos sábados, saía de manhã para montar uma barraca na feira de artesanato no Parque da Redenção. Comumente vendia pouco, ou nada. As flores eram caras. E ela odiava as pessoas que diziam que o trabalho dela era ótimo, perguntavam o preço, achavam caro e não compravam. Xingava-as constantemente.

 

Nós conversávamos bastante. Ela era inteligente e a pessoa mais normal que me aparecera por lá. O problema é que não conseguia parar de falar. Quando engatava uma conversa ficava horas tagarelando. Às vezes eu estava disposto a escutar e compartilhar algumas opiniões, embora imaginasse que se ela tivesse um ataque de tosse fulminante ainda daria tempo de ver a novela. Outros dias eu não estava a fim, e então tinha que fugir.

 

Certa vez, eu disse que não podia conversar, pois precisava tomar banho e estudar. Mas ela não deu muita bola e engatou considerações sobre as civilizações africanas e o mundo pré-colombiano (grandes diversidades de assunto ela tinha). Eu fui fugindo, mas ela me perseguia pela casa falando incessantemente, desde a cozinha até meu quarto. Tive que pegar a toalha e o sabonete e me trancar no banheiro na cara dela.

 

Infelizmente, ela se mudou de repente, antes que eu pudesse comprar uma flor. Nunca mais a vi. Mas após sair da casa, ela deixou uma espécie de móbile na cozinha, feito com fundos de garrafa derretidos e coloridos. Peguei-o e dei para a minha mãe, como pode comprovar o retrato ao lado. Existe até hoje.

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