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obnubilado

Blog que ainda existe, apesar do tempo.

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A Casa de Quartos - Parte 2: Hit me again

Me mudei para a casa dia 12 de agosto de 2000. Fui colocado no quarto maior, o único quarto bom vago. Tal cômodo era para abrigar duas pessoas e eu tinha que rezar para que ninguém a mais chegasse, senão teria que dormir acompanhado por um estranho (isso acabou acontecendo um mês depois, e o estranho era meu colega de faculdade, mas no dia seguinte foi tirado de lá - dizem - pelo pastor da igreja que ele freqüentava).

 

Na casa, a essas alturas, já moravam outras cinco pessoas: uma moça simpática demais, daquelas que te pedem emprestado shampoo e 2 reais logo depois de te conhecer (Adriane, a veterana do local), e dois funcionários do Campus do Vale da UFRGS (que fica no lado oposto do morro): Cláudio, com seus 30 anos, bem educado, cabelos longos presos num rabo-de-cavalo apenas solto quando chegava em casa, e um senhor de cabelos brancos, alto e forte, alegre, Seu Renato,  que trazia chocolate ou chiclete, às vezes, para nós. No quarto no fim do corredor moravam ainda, há menos de uma semana, um casal, que só chegava à noite e adorava fazer comida com muito alho, deixando um cheiro ensurdecedor na cozinha.

 

Tudo parecia ir bem. Almoçamos até todos juntos num domingo em que as donas da casa foram limpar o jardim. Elas eram anti-petistas e eu ficava muito bravo com as coisas que falavam sobre a prefeitura, mas tudo bem, “eram boas pessoas” eu me equivocava pensando.

 

Então, coisas aconteceram: cortaram a nossa água. Simplesmente, um dia à tarde não tínhamos água e soubemos que a dona não havia pago. Telefonema pra cá, telefonema pra lá, no dia seguinte pagaram. Mas então cortaram a luz. Discussões rolaram. A menina veterana xingou todo mundo, aos gritos, no telefone. Novamente, pagaram no dia seguinte. Isso viria a acontecer diversas vezes ao longo do tempo: as donas da casa não pagavam as contas e nós ficávamos sem água e/ou luz. Um espanto. E, claro, elas sempre eram as vítimas. Elas pagavam em dia, mas a prefeitura petista mandava cortar...

 

Daí, choveu. Choveu mais no meu quarto do que na rua. Havia uma cascata no canto do quarto e então eu entendi porque naquele local o forro tinha manchas escuras. Choveu, choveu, choveu, diversas vezes. Mandavam arrumar o telhado, mas o trabalho nunca dava certo, e cada vez chovia mais. Então, o casal se encheu de tudo e saiu da casa e eu me mudei para o quarto deles. Um quarto interno, sem abertura para a rua, mas era gostoso, calmo e - bem melhor - seco.

 

Foi quando Seu Renato, que tinha um fusca branco, começou a ficar estranho. Chegava em casa de madrugada, bêbado, cantava na sala até que resolvia ir dormir. Já no quarto, ficava gemendo, como se sentisse grande dor. Muito alto durante muito tempo. E às vezes gritava coisas estranhíssimas como "Hit me! Aha! Hit me again!". Algumas semanas depois ele foi embora, sem cometer nenhum assassinato, graças a Deus. Cláudio também se mudou em seguida e a Adriane arrumou um noivo, que também foi morar lá, mas em um mês se mudaram para Santa Maria. Já havia passado uns seis meses então. Eu ainda estava na casa. E novos personagens foram surgindo das profundezas.

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